Em 3 de junho, o choque: o Bispo
católico da Anatólia e presidente da Conferência Episcopal Turca
é morto a facadas por seu motorista. Um dos mais influentes prelados
do Oriente Médio, ele foi o redator do texto-base para o Sínodo dos Bispos da
região que o Papa levava justamente para apresentar em Chipre. Sua
morte recebeu explicações conflitantes no decorrer dos dias.
Duas interpretações do assassinato de Dom
Luigi Padovese correram nos meios eclesiásticos implicados no caso. A
primeira, avançada pelo Papa em viagem a Chipre, no dia seguinte ao ocorrido, é
a de "motivações pessoais" para o crime. Uma depressão ou
perturbações mentais, ou ainda, na acusação do próprio assassino, os ataques
homossexuais que teria sofrido por parte do bispo. A
segunda interpretação, um assassinato ritual islâmico, praticado com
detalhes, com o objetivo de impor o medo do "banho de sangue
católico" à visita do Papa e à suas negociações no Oriente Médio.
A primeira interpretação, evidentemente
errônea, teria tido como função exatamente quebrar o primeiro efeito terrorista
do assassinato, permitindo a Bento XVI concluir com sucesso sua visita a
Chipre, deixando para mais tarde a investigação das causas reais do crime.
Uma terceira interpretação foi ainda
aventada pelo jornal espanhol El País, afirmando que o alvo do atentado
seria o Papa em Chipre, onde Dom Padovese e seu motorista estariam muito
próximos do Pontífice.
Os três artigos abaixo, entre os muitos
que foram publicados, resumem o que se conhece no momento sobre o
caso.
Lucia Zucchi
Assassino de Dom Padovese não agiu sozinho
10/06/2010
As versões oficiais começam a soar como um
compromisso costurado com os alfinetes da prudência e da alta política. A
polícia turca, a comunidade cristã de Anatólia
e a autópsia realizada no cadáver do bispo Luigi Padovese
coincidem em que o assassinato da última quinta-feira do prelado milanês, de 63
anos, foi por razões religiosas ou políticas e não, como se tem dito até agora,
por obra de um alienado mental.
A reportagem é de Miguel
Mora, publicada no jornal El País, 09-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A seis dias do crime, vai tomando corpo a ideia de que Murat Altun, o motorista de 26 anos que
desferiu 20 punhaladas no presidente da Conferência
dos Bispos da Turquia, não agiu sozinho.
Segundo a reconstrução elaborada pelas testemunhas e pelos líderes
católicos da Turquia, Altun chegou à casa privada de Padovese em Iskenderun acompanhado por pelo
menos uma ou duas pessoas. "A polícia começa inclusive a admitir que o
bispo foi assassinado por pelo menos duas pessoas", indica o arcebispo de Esmirna, Ruggero Franceschini, em declarações
ao jornal italiano La Stampa.
Várias testemunhas declararam, além disso, que quando o motorista
assassinou o bispo ele estava protegido por um colete à prova de balas e
indicam que foi preso pela polícia militar e não pela estatal.
Segundo essas versões, as desordens psíquicas de Altun invocadas
em um primeiro momento pelo governo turco não existem. Alguns membros de sua
família, que trabalhavam para Padovese na Igreja local, haviam se demitido do
trabalho dois dias antes do crime, segundo revelou um membro da comunidade
católica.
Segundo a autópsia realizada en Iskenderun, o corpo do bispo
capuchinho, grande defensor do diálogo com o islã, recebeu 20 facadas, oito
delas perto do coração. Sabe-se que Altun atacou o prelado dentro da casa, e
que este conseguiu sair para o jardim pedindo ajuda. Ali, seu agressor o
decapitou. Depois, Altun subiu ao telhado da casa e, segundo as testemunhas,
gritou: "Matei o grande Satanás. Alá é grande".
Um assassinato ritual, segundo a agência
católica Asia News,
que traz a marca dos fundamentalistas islâmicos supostamente manipulados pelo
chamado Estado Profundo,
una rede golpista infiltrada nos serviços de segurança do Estado que busca
derrubar o governo do primeiro-ministro, Recep
Tayyip Erdogan.
As autoridades turcas não admitem essa possibilidade neste
momento. Primeiro, disseram que o bispo morreu a caminho do hospital. Mais
tarde, que morreu na clínica. Finalmente, quando foi vista a foto do corpo no
jardim, o governador da província, Mehmet
Celalettin, descartou que o objetivo fosse religioso ou
político, e assegurou que o agressor havia agido sozinho.
Nas últimas horas, as supostas desordens psíquicas de Altun foram
até negadas pelo seu advogado, que assegura agora que o motorista matou o bispo
em legítima defesa porque este abusava sexualmente dele. O bispo de Esmirna
replica: "A autópsia confirmou que Padovese não teve relações sexuais nem
na quinta-feira nem antes de quinta-feira".
Nas missões cristãs, interpreta-se que o homicídio significa uma
mudança na estratégia anticristã dos radicais turcos. "Antes matavam
padres, agora se atrevem com os bispos", disse uma religiosa local.
O Vaticano
continua assumindo a versão defendida desde o começo para não comprometer a
viagem do Papa ao Chipre.
O fato chave é que Padovese cancelou as passagens de avião (a sua e a de
Altun) quando só faltavam poucas horas para embarcar para a ilha, onde o Papa
lhe esperava para apresentar o documento preparatório do Sínodo do Oriente Próximo.
O vaticanista Filippo di
Giacomo, que reúne impressões de diplomáticos, amigos e
colaboradores de Padovese, insiste que este, ao ser informado do perigo que
Altun representava, "preferiu arriscar sua imolação pessoal para evitar
uma tragédia pessoal, isto é, um atentado contra o Papa".
Di Giacomo explica assim a reticência vaticana: "É
compreensível que a máquina de suavizar busque continuar o diálogo com a Turquia.
E não seria a primeira vez que o interesse de um se sacrifica pelo interesse de
muitos".
A magistratura italiana realizará uma segunda autópsia do corpo de
Padovese quando ele for repatriado, provavelmente nesta quarta-feira ou
quinta-feira. Os funerais serão realizados em Milão, cidade natal do prelado, e
foram adiados até segunda-feira por esse motivo.
O Papa foi "mal aconselhado"
pelos diplomatas vaticanos?
(13/06/10)
"Acredito que no Vaticano também entenderam que eu
tenho razão: o homicídio de Luigi Padovese tem apenas
motivações religiosas. O assassinato mostra, de fato, elementos explicitamente
islâmicos. Não se trata do governo turco. Não se trata de Ankara. Não se trata de motivações
pessoais. Trata-se apenas do Islã.
Eu sei disso. O Papa
disse antes de aterrissar no Chipre
que 'não se trata de um assassinato político ou religioso, mas sim de uma coisa
pessoal'. Acredito que ele tenha sido mal aconselhado. O Vaticano não pode nos
ensinar certas coisas".
Esse é o fulgurante início da entrevista do bispo de Smirna, Ruggero Franceschini,
a Paolo Rodari, no
jornal Il Foglio
deste sábado, 12 de junho.
A análise é de Sandro Magister,
em seu blog Settimo Cielo,
12-06-2010. A
tradução é de Moisés
Sbardelotto.
Entrevista que deve ser lida na íntegra. Muito detalhada sobre o assédio
islâmico aos cristãos da Turquia.
Sobre as escolas que incitam ao ódio religioso e humilham os alunos batizados.
Sobre a dinâmica do assassinato de Padovese. Sobre o perfil do assassino e da
sua família: "Sempre é um risco se encarregar dos muçulmanos do lugar. Já
aprendemos isso às nossas custas".
O bispo Franceschini
é um veterano da Igreja da Turquia. É o antecessor de Padovese em Iskenderun e, no mesmo dia em que
foi publicada a sua entrevista ao Foglio,
ele foi nomeado pelo Papa como vigário apostólico de Anatólia, no lugar do assassinado.
Foi ele que presidiu os seus funerais e fez a homilia. Foi ele que, desde o
início, manteve viva atenção sobre as razões reais do assassinato, que não
podia ser liquidado como obra isolada de um louco.
E é ele, agora, que denuncia publicamente o erro cometido pelas autoridades
vaticanas, antes com a voz do padre Federico
Lombardi, mas depois, principalmente, com as palavras ditas
por Bento XVI
pessoalmente a bordo do avião para o Chipre, no dia seguinte ao assassinato de
Padovese.
O fato de que, neste caso, o Papa tenha sido "mal aconselhado" pela
secretaria de Estado já é um dado cmoprovado, graças à franqueza de um bispo
como Franceschini, que tem todas as razões para dizer: "O Vaticano não
pode nos ensinar certas coisas".
Para o Sínodo dos bispos do Oriente
Médio agendado para outubro próximo, esse erro foi uma
desastrosa preliminar. Não há nada pior do que estimular os muçulmanos inimigos
do cristianismo com declarações que, para eles, soam como atos de pura
submissão.
9/6/2010
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O bispo assassinado e as duas
linhas do Vaticano
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Não
existem duas linhas no Vaticano
sobre a avaliação do homicídio do bispo Padovese. Às
vésperas da partida do Papa
para o Chipre,
houve uma gestão "voltada a acalmar" – defendem grandes
conhecedores das "interna
corporis" da Santa
Sé – um impacto do assassinato que poderia ter efeitos
devastadores tanto para a visita de Bento
XVI, quando, ainda mais, para a organização que, com um
trabalho longo, meticuloso e preciso, foi inciada pelo Pontífice para o
próximo Sínodo sobre o Oriente Médio.
"Evitando desse modo manipulações interessadas", acrescentam as
mesmas fontes.
A
reportagem é de Maria Antonietta
Calabrò, publicada no jornal Corriere della Sera, 08-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Além
dos muros do Vaticano
e nos ambientes diplomáticos internacionais, pergunta-se se o objetivo do
homicídio de Padovese (que alguns especialistas não hesitam em definir como
uma execução "à la iraquiana"), se for demonstrada como fundada a
sua matriz
"ritual" lançada nesta segunda-feira pela agência
Asianews, foi
justamente o de condicionar com um ato violento, extremo e perfeitamente
calibrado nos tempos a linha de Bento XVI.
"Acalmar
o impacto" impediu que, eventualmente, esse objetivo fosse alcançado.
Agora, a verdade dos fatos que será apurada sobre as causas da morte do bispo
não poderá, em todo o caso, impedir aquilo que o Papa considera absolutamente
necessário para evitar o "banho de
sangue" na Terra Santa
e o desaparecimento dos seguidores de Jesus Cristo dos lugares históricos da
sua presença: o "triálogo" entre cristãos, judeus e muçulmanos,
como caminho obrigatório para uma paz justa e duradoura.
Também
desse ponto de vista (isto é, ter evitado que o assassinato de Padovese
condicionasse a visita), a viagem do Papa ao Chipre foi um sucesso, assim
como havia sido a viagem a Malta
no meio da maré alta do escândalo da pedofilia. "Não existem duas
linhas", confirma também o padre Bernardo
Cervellera, diretor da Asianews, a agência de informações
sobre a Igreja no mundo que desde sempre é considerada como informada e
confiável.
Não é
por acaso que o padre Samir Khalil Samir,
jesuíta egípcio, professor de história da cultura árabe e de islamologia na Universidade Saint-Joseph de Beirute, considerado o maior
especialista católico em Islã
e influente "conselheiro" do próprio Bento XVI, que também estava
presente no Chipre, escreva frequentemente na Asianews.
Samir,
além disso, faz parte do Comitê Científico da Oasis,
a revista que faz referência ao Patriarca
de Veneza, Angelo Scola, editada
também em árabe. A linha do "triálogo" não pode ser considerada
"uma correção" do discurso de Regensburg que o bispo Padovese
também havia compartilhado totalmente. No último dia 05 de fevereiro, quarto
aniversário do assassinato do padre Santoro,
ele havia dito à Rádio do Vaticano:
"Padre Andrea foi assassinado como símbolo enquanto sacerdote
católico". |