domingo, 14 de abril de 2013




A EXISTÊNCIA DEDEUS
UM DEBATE ENTRE BERTRAND RUSSEL E O PADRE F. C. COPLESTON, S. J.
Este debate foi, originariamente, irradiado em 1948, no Terceiro Programa da B.B.C. Foi publicado em Humanitas, número correspondente ao outono de 1948, e é aqui reimpresso com a amável permissão do Pde Copleston.
COPLESTON:
Como vamos discutir a existência de Deus, talvez fosse bom chegássemos a um acordo provisório quanto ao que entendemos pela palavra “Deus”. Presumo queremos significar um ser pessoal supremo – distinto do mundo e criador do mundo. Concordaria o senhor – pelo menos provisoriamente – em aceitar essa expressão como significando “Deus”?
RUSSELL:
Sim, aceito essa definição.
COPLESTON:
Bem, minha posição é a posição afirmativa de que tal ser existe verdadeiramente, e que a Sua existência pode ser filosoficamente provada. Talvez o senhor pudesse dizer-me se sua posição é de agnosticismo ou de ateísmo. Em outras palavras: diria o senhor que a não-existência de Deus pode ser provada?
RUSSELL:
Não, não diria tal coisa; minha posição é agnóstica.
COPLESTON:
Concordaria comigo que o problema de Deus é um problema de suma importância? Concordaria, por exemplo, que, se Deus não existe, as criaturas humanas e a história humana não podem ter outro propósito senão aquele que elas queiram dar a si próprias, o que – na pratica – significaria, com toda a probabilidade, o propósito imposto por aqueles que têm o poder de impô-lo?
RUSSELL:
De um modo geral, sim, embora, eu devesse fazer alguma restrição quanto à sua última
cláusula.
COPLESTON:
Concordaria que se não existe Deus – se não existe nenhum Ser absoluto – não podem existir quaisquer valores absolutos? Em outras palavras: concordaria que não existe um bem absoluto de onde resulta a relatividade dos valores?
RUSSELL:
Não, penso que essas questões são logicamente distintas. Tomemos, por exemplo, osPrinc ip i a
Ethica, de G.E. Moore, onde ele afirma que existe uma distinção entre o bem e o mal, e que ambos
são conceitos definidos. Mas ele não traz à baila a idéia de Deus em apoio de sua afirmação.
COPLESTON:
Bem, deixemos o argumento do bem para depois, até chegarmos ao argumento moral, e
apresentarei primeiro um argumento metafísico. Gostaria de ressaltar principalmente o argumento
104
metafísico baseado no argumento de Leibniz acerca de “Contingência” e, depois, poderíamos discutir o argumento moral. Que lhe parece se eu dissesse primeiro umas breves palavras sobre o argumento metafísico e passássemos, depois a discuti-lo?
RUSSELL:
Parece-me um plano muito bom.
O argumento de contingência
COPLESTON:
Bem, tendo em vista a clareza, dividirei o argumento em fases distintas. Antes de mais nada, eu diria que sabemos existem pelo menos certos seres no mundo que não contêm em si mesmos a razão de sua existência. Por exemplo: dependo de meus pais e, depois, do ar, de alimentos e assim por diante. Em segundo lugar, o mundo é simplesmente a totalidade real ou imaginária, ou o agregado de objetos individuais, nenhum dos quais contém em si mesmo, isoladamente, a razão de sua existência. Não existe qualquer outro mundo distinto dos objetos que o formam, do mesmo modo que a raça humana não é algo à parte de seus membros. Por conseguinte, eu diria que, já que objetos ou acontecimentos existem, e já que nenhum objeto da experiência contém dentro de si mesmo a razão de sua existência, esta razão, a totalidade dos objetos, deve ter uma razão exterior a si mesma. Essa razão deve ser um ser existente. Bem, ou este ser é a razão de sua própria existência, ou não é. Se o é, muito bem! Se o não é, temos de prosseguir. Mas se prosseguirmos, nesse sentido, até o infinito, então não há explicação alguma quanto à existência. Assim, eu diria que, a fim de explicar a existência, devemos chegar a um ser que contém dentro de si mesmo a razão de sua própria existência, isto é, que não possa não-existir.
RUSSELL:
Isso suscita muitíssimos pontos e não é muito fácil saber-se por onde começar, mas penso que, talvez, em resposta ao seu argumento, o melhor ponto pelo qual começar é a questão do ser necessário. A palavra “necessário”, diria eu, só pode ser significativamente aplicada a proposições. E, com efeito, somente às que são analíticas, isto é, àquelas que não podem ser negadas sem se incorrer em autocontradição. Eu só poderia admitir um ser necessário se existisse um ser cuja existência fosse autocontradit6rio negar-se. Gostaria de saber se o senhor aceitaria a divisão de proposições de Leibniz em verdades de razão e verdades de fato. Sendo a primeira – a verdade de razão – necessária.
COPLESTON:
Bem, eu, certamente, não subscreveria o que parece ser a idéia de Leibniz quanto a verdades de razão e a verdades de fato, já que se diria que, para ele, só existem, em última análise, proposições analíticas. Dir-se-ia, que, para Leibniz, as verdades de fato são reduzíveis, em último termo, a verdades de razão. Isso é o mesmo que dizer, a proposições analíticas, pelo menos para um espírito onisciente. Bem, eu não poderia concordar com isso. Por um lado, seria deixar de atender às exigências da experiência da liberdade. Não desejo defender toda a filosofia de Leibniz. Usei de seu argumento, passando do contingente ao ser necessário; e baseando o argumento sobre o princípio da razão suficiente, simplesmente porque ele me parece uma breve e clara formulação daquilo que é, a meu ver, o argumento metafísico fundamental a favor da existência de Deus.
RUSSELL:
Mas, a meu ver, “uma proposição necessária” tem de ser analítica. Não vejo que outra coisa poderá ela significar. E as proposições analíticas são sempre complexas e logicamente um tanto ou quanto posteriores. “Animais irracionais são animais” é uma proposição analítica; mas uma proposição como “Isto é um animal” não pode jamais ser analítica. Com efeito, todas as proposições que podem ser analíticas são uns tanto posteriores na construção de proposições.
COPLESTON:
Tome-se a proposição “Se existe um ser contingente, há um ser necessário”. Considero essa proposição hipoteticamente expressa como sendo uma proposição necessária. Se formos chamar de analíticas a tôdas as proposições necessárias, então – a fim de evitar uma disputa quanto à terminologia – eu concordaria em chamá-la analítica, embora não a considere uma proposição tautológica. Mas a proposição só é uma proposição necessária supondo-se que existe um ser contingente. Que há um ser contingente que realmente existe é coisa que se tem de descobrir por experiência, e a proposição de que existe um ser contingente não é, certamente uma proposição analítica, embora, como o senhor sabe, se eu afirmasse que há um ser contingente, seguir-se-ia, necessariamente, que há um ser necessário.
RUSSELL:
A dificuldade desse argumento é que não admito a idéia de um ser necessário e não admito que haja qualquer sentido particular em chamar-se aos outros seres “contingentes”. Essas frases, para mim, nada significam, salvo dentro de uma lógica que rejeito.
COPLESTON:
O senhor quer dizer que rejeita esses termos porque eles não se enquadram naquilo que se
chama “lógica moderna”?
RUSSELL:
Bem, não me é possível encontrar coisa alguma que pudessem significar. A palavra “necessário” parece-me, é uma palavra inútil, salvo quando aplicada a proposições analíticas, não a coisas.
COPLESTON:
Em primeiro lugar, que é que o senhor entende por “lógica moderna”? Tanto quanto sei, existem sistemas um tanto ou quanto diferentes. Em segundo lugar, nem todos os lógicos modernos admitiriam, certamente, a falta de sentido da metafísica. Tanto o senhor como eu conhecemos, de qualquer modo, um pensador moderno bastante eminente cujo conhecimento da lógica moderna era profundo, mas que, por certo, não considerava a metafísica como uma coisa falta de sentido ou, em particular, que o problema de Deus é inexpressivo. Ora, mesmo que todos os lógicos modernos afirmassem que os termos metafísicos não têm sentido, não se seguiria daí que tivessem razão. A proposição de que os termos metafísicos não têm sentido, parece-me ser uma proposição baseada numa filosofia pressuposta. A posição dogmática existente atrás disso parece ser esta: o que não entra em minha máquina é não-existente, ou não tem sentido; é a expressão de uma emoção. Estou simplesmente procurando ressaltar que, quem quer que diga que um dado sistema da lógica moderna constitui o único critério de significação, está dizendo algo mais do que dogmático; está insistindo, dogmaticamente, em que uma parte da filosofia constitui o todo da filosofia. No fim de contas, um ser “contingente” é um ser que não tem em si próprio a razão completa para sua existência – eis o que quero dizer quando me refiro a um ser contingente. O senhor sabe, tão bem
106
quanto eu, que a existência de nenhum de nós pode ser explicada sem referência a alguma coisa ou a alguém fora de nós – nossos pais, por exemplo. Um ser “necessário”, por outro lado, significa um ser que deve existir e que não pode não-existir. O senhor poderá dizer que não existe tal ser, mas ser-lhe-á difícil convencer-me de que não compreende os termos que estou usando. Se não os compreende, como pode estar habilitado a dizer que tal ser não existe, se é isso que, de fato, quer dizer?
RUSSELL:
Bem, há aqui certos pontos que não me proponho tratar minuciosamente. Não afirmo, de modo algum, a falta de sentido da metafísica em geral. Afirmo que não têm sentido certos termos particulares – não em qualquer terreno geral, mas simplesmente porque não me foi possível deparar com uma interpretação desses termos particulares. Não se trata de um dogma geral; é algo particular. Mas, por ora, deixarei esses pontos de lado. E direi que o que o senhor esteve dizendo nos traz de volta, segundo me parece, ao argumento ontológico de que existe um ser cuja essência implica existência, de modo que sua existência é analítica. Isso me parece impossível, e suscita, certamente, a pergunta: Que é que se entende por existência? Quanto a isto, penso que jamais se poderá dizer, significativamente, que um dado sujeito existe, mas somente um sujeito descrito. E que a existência, com efeito, não é, positivamente, um predicado.
COPLESTON:
Bem, o senhor diz, creio eu, que é má gramática, ou, antes, má sintaxe, dizer-se, por exemplo: “T.S. Eliot existe”; dever-se-ia dizer, por exemplo: “Ele, o autor de Murder in the Cathedral, existe”. Dirá, acaso, o senhor que a proposição “A Causa do mundo existe” não tem sentido? O senhor poderá dizer que o mundo não tem causa; mas não consigo ver de que maneira poderá dizer que a proposição “a causa do mundo existe” não tem sentido. Coloquemos isto em forma de pergunta: “Tem o mundo uma causa?” ou “A causa do mundo existe?” quase todas as pessoas compreenderiam, certamente, a pergunta, mesmo que não estivessem de acordo quanto à resposta.
RUSSELL:
Não há dúvida de que a pergunta “A causa do mundo existe?” é uma pergunta que tem sentido. Mas se dissermos “Sim, Deus é a causa do mundo”, estaremos usando Deus como um nome próprio; nesse caso, “Deus existe” não será uma enunciação que tenha sentido; eis aí o ponto de vista que estou defendendo. Porque, assim sendo, inferir-se-á que não poderá ser uma proposição analítica dizer-se jamais que isto ou aquilo existe. Suponhamos, por exemplo, tomássemos como tema “o círculo-quadrado existente”; pareceria uma proposição analítica que “o círculo-quadrado existente existe”, mas não existe.
COPLESTON:
Não, não existe e, nesse caso, não podemos, certamente, dizer que não existe a menos que tenhamos uma concepção do que é existência. Quanto à frase “círculo-quadrado existente”, eu diria que não tem qualquer sentido.
RUSSELL: Concordo inteiramente. Então eu diria a mesma coisa em outro contexto, com referência a um “ser necessário”.

COPLESTON:
Bem, parece que chegamos a um impasse. Dizer-se que um ser necessário é um ser que deve existir e que não pode não-existir tem, para mim, um sentido definido. Para o senhor, não tem sentido algum.
RUSSELL:
Podemos insistir um pouco mais sobre este ponto, penso eu. Um ser que deve existir e que não pode não-existir, seria, certamente, segundo sua opinião, um ser cuja essência implica existência.
COPLESTON:
Sim, um ser cuja essência é existir. Mas eu não desejaria discutir a existência de Deus partindo simplesmente da idéia de Sua essência, pois não me parece que tenhamos ainda qualquer intuição clara quanto à essência de Deus. Penso que temos de argumentar partindo do mundo da experiência com respeito a Deus.
RUSSELL:
Sim, percebo perfeitamente a distinção. Mas, de qualquer modo, para um ser dotado de
conhecimento suficiente seria verdadeiro dizer: “Eis aqui este ser cuja essência implica existência!”.
COPLESTON:
Sim, certamente, se alguém visse Deus, veria que Deus deve existir.
RUSSELL:
Quero dizer, pois, que existe um ser cuja essência implica existência, embora não
conheçamos essa essência. Sabemos apenas que esse ser existe.
COPLESTON:
Sim, eu acrescentaria que não conhecemos a essência a priori. É somente a posteriori, mediante nossa experiência do mundo, que chegamos a um conhecimento desse ser. E, então, afirmamos que a essência e a existência devem ser idênticas – porque se a essência de Deus e a existência de Deus não fossem idênticas, ter-se-ia, então, de encontrar além de Deus alguma razão suficiente para essa existência.
RUSSELL:
De modo que tudo gira em torno dessa questão de razão suficiente, e devo dizer que o senhor não definiu, de nenhum modo que eu possa compreender, essa “razão suficiente”. Que é que entende por razão suficiente? Não se refere à causa, pois não?
COPLESTON:
Não necessariamente. Causa é uma espécie de razão suficiente. Somente um ser contingente pode ter uma causa. Deus é a Sua própria e suficiente razão; Ele não é causa de Si Mesmo. Por razão suficiente, em seu mais amplo sentido, entendo uma explicação adequada quanto à existência de algum ser particular.
RUSSELL:
Mas quando uma explicação é adequada? Suponhamos que eu, esteja prestes a produzir uma chama com um fósforo. O senhor poderia dizer que a explicação adequada disso é que eu o risco na caixa.
108
COPLESTON:
Bem, por motivos práticos – mas, teoricamente, isso é apenas uma explicação parcial. Uma explicação adequada deve ser, em última análise, uma explicação total, à qual nada se possa acrescentar.
RUSSELL:
Nesse caso, posso apenas dizer que o senhor está à procura de algo que não se pode obter, e
que não se deveria esperar obter.
COPLESTON:
Dizer-se que a gente não o encontrou é uma coisa; mas afirmar-se que não se devia procurá-
lo me parece um tanto dogmático.
RUSSELL:
Bem, não sei. O que quero dizer é que a explicação de uma coisa é outra coisa que torna a outra coisa dependente de uma outra coisa ainda, e que o senhor tem de apreender em toda a sua inteireza esse triste esquema de coisas para fazer o que pretende – e isso é coisa que não se pode fazer.
COPLESTON:
Mas o senhor irá dizer que não podemos fazê-lo, ou que não devíamos sequer levantar a
questão deste triste esquema de coisas... de todo o universo?
RUSSELL:
Sim. Não creio que haja qualquer sentido nisso. Penso que a palavra “universo”, em certas
conexões, é uma palavra útil, mas não creio que represente algo que tenha sentido.
COPLESTON:
Se a palavra não tem sentido, não pode ser assim tão útil. De qualquer modo, não digo que o universo é algo diferente dos objetos que o compõem (o que já indiquei em meu breve sumário de prova); o que estou fazendo é procurar a razão, neste caso a causa dos objetos – a totalidade real ou imaginária daquilo que constitui o que chamamos Universo. O senhor diz, creio eu, que o universo – ou minha existência, ou, se assim o preferir, qualquer outra existência – é ininteligível?
RUSSELL:
Permita-me voltar à sua afirmação de que se uma palavra não tem sentido não pode ser útil. Isso soa bem, mas não é, com efeito, certo. Tomemos, por exemplo, uma palavra como “the” ou “than”. Não se pode indicar qualquer objeto que tais palavras signifiquem, mas são palavras muito úteis; eu diria o mesmo de “universo”. Mas, deixando-se este ponto, o senhor pergunta se considero o universo ininteligível. Eu não diria ininteligível: penso que não tem explicação. Inteligível, a meu ver, é coisa diferente. Inteligível tem que ver com a coisa mesma, intrinsecamente, e não com suas relações.
COPLESTON:
Bem, minha opinião é que o que chamamos mundo é intrinsecamente ininteligível, à parte a existência de Deus. Como vê, não creio que a infinidade das séries de acontecimentos – refiro-me a séries horizontais, por assim dizer – se tal infinidade pudesse ser provada, teria a mínima importância para o caso. Se somarmos chocolates, obteremos, no fim, chocolates, e não um carneiro. Se acrescentarmos chocolates até o infinito, obteremos, presumivelmente, um número infinito de chocolates. Se somarmos seres contingentes até o infinito, ainda obteremos seres contingentes, e não um ser necessário. Uma série infinita de seres contingentes será, a meu ver, tão incapaz de se causar a si mesma como um ser contingente. Não obstante, o senhor diz, creio eu,
não ser legítimo levantar a questão daquilo que explicará a existência de qualquer objeto particular?
RUSSELL:
Está perfeitamente certo se, por “explicar”, o senhor quiser dizer que está simplesmente
encontrando uma causa para o mesmo.
COPLESTON:
Por que nos determos em um determinado objeto? Por que não deveríamos formular a
questão relativa à causa da existência de todos os objetos particulares?
RUSSELL:
Porque não vejo razão para pensar que haja qualquer causa. Todo conceito de causa se deriva de nossa observação de coisas particulares; não vejo razão alguma para supor que o total tenha qualquer causa.
COPLESTON:
Bem, dizer-se que não existe qualquer causa não é o mesmo que dizer que não deveríamos procurar uma causa. A afirmação de que não existe causa deveria vir – se é que deveria vir – no final da investigação, e não no começo. De qualquer modo, se o total não tem causa, então, segundo minha maneira de pensar, deve ser ele a sua própria causa, o que me parece impossível. Ademais, a afirmação de que o mundo simplesmente aí está, se feita em resposta a uma pergunta, pressupõe que a pergunta tem sentido.
RUSSELL:
Não, não é necessário que ele seja a sua própria causa; o que estou dizendo é que o conceito
de causa não é aplicável ao total.
COPLESTON:
Então o senhor concordaria, com Sartre, que o universo é o que ele chama “gratuito”?
RUSSELL:
A palavra “gratuito” sugere que poderia ser uma outra coisa; eu diria apenas que o universo
apenas aí está, eis tudo.
COPLESTON:
Na verdade, não vejo como pode o senhor excluir a legitimidade da pergunta de como o total, ou o que quer que seja, aí se encontra. Por que algo e em lugar de nada? – eis a questão. O fato de obtermos o nosso conhecimento da causalidade empiricamente, partindo de causas particulares, não exclui a possibilidade de se indagar qual a causa das séries. Se a palavra “causa” não tivesse sentido, ou se se pudesse demonstrar que a opinião de Kant a respeito da matéria, a questão seria ilegítima, concordo. Mas não me parece que o senhor afirme que a palavra “causa” não tem sentido, e não suponho que o senhor seja kantiano.
RUSSELL:
Posso ilustrar o que me parece constituir o seu engano. Todo homem que existe tem mãe, e parece-me que o seu argumento é, por conseguinte, que a raça humana deva ter uma mãe; mas, obviamente, a raça humana não tem mãe... e eis aí uma esfera lógica diferente.
COPLESTON:
Na verdade, não consigo ver qualquer semelhança. Se eu estivesse dizendo que “todo objeto tem uma causa fenomenológica e que, por conseguinte, as séries todas têm uma causa fenomenológica”, haveria paridade. Mas não o estou dizendo. O que estou dizendo é que todo objeto
110
tem uma causa fenomenológica, se se insistir sobre a infinidade das séries – mas as séries de causas fenomenológicas são uma explicação insuficiente das séries. Por conseguinte, as séries não têm uma causa fenomenológica, mas uma causa transcendente.
RUSSELL:
Isso sempre se pressupondo que não apenas cada coisa particular no mundo, mas que o próprio mundo, como um todo, deva ter uma causa. Quanto a essa pressuposição, não vejo fundamento algum. Se o senhor me apresentar algum fundamento, eu o ouvirei.
COPLESTON:
Bem, uma série de ocorrências ou é causada ou não é causada. Se for causada, deve haver, evidentemente, uma causa fora da série. Se não é causada, então é porque é suficiente a si mesma e, se é suficiente a si mesma, é o. que chamo necessária. Mas não pode ser necessária, já que cada membro é contingente, e já concordamos que o total não constitui realidade, à parte quanto ao que concerne aos seus membros. Por conseguinte, não pode ser necessária. Assim, não pode ser (causada) não-causada; por conseguinte deve ter uma causa. E gostaria de observar, de passagem, que a afirmação de que “o mundo simplesmente aí está e é inexplicável” não pode sair da análise lógica.
RUSSELL:
Não quero parecer arrogante, mas parece-me que posso conceber coisas que o senhor diz que a mente humana não pode conceber. Quanto ao que diz respeito a coisas que não têm causa, os físicos nos asseguram que a transição do quantum individual nos átomos não tem causa.
COPLESTON:
Imagino se isso não será simplesmente uma inferência temporária.
RUSSELL:
Pode ser que o seja, mas isso não revela que as mentes dos físicos não a podem conceber.
COPLESTON:
Sim, concordo, certos cientistas – físicos – estão dispostos a admitir a indeterminação dentro de um terreno restrito. Mas muitíssimos outros cientistas não estão tão dispostos a isso. Creio que o Prof. Dingle, da Universidade de Londres, afirma que o princípio de incerteza (uncertainty
principle) de Heisenberg nos diz algo acerca do sucesso (ou insucesso) da presente teoria atômica
em observações correlatas, mas não acerca da natureza em si, e muitos físicos aceitariam tal opinião. De qualquer modo, não vejo de que modo os físicos possam deixar de aceitar a teoria na prática, mesmo que não o façam em teoria. Não me é possível ver de que modo à ciência poderia ser conduzida sob qualquer outra pressuposição se não aquela da ordem e inteligibilidade na natureza. O físico presume, pelo menos tacitamente, que há certo sentido em investigar-se a natureza e nela procurar as causas de acontecimentos, assim como o detetive pressupõe que há certo sentido em se procurar a causa de um assassínio. O metafísico supõe que há sentido em procurar-se a razão ou a causa dos fenômenos e, não sendo kantiano, acho que o metafísico tem tanta justificação para a sua suposição quanto o físico. Quando Sartre, por exemplo, diz que o mundo é gratuito, penso que ele não considerou suficientemente o que a palavra “gratuito” implica.
RUSSELL:
Acho que parece haver, aí, um certo prolongamento injustificável; um físico busca causas; isso não implica, necessariamente, que haja causas em toda a parte. Um homem pode procurar ouro sem que presuma que haja ouro em toda a parte. Se encontrar ouro, tanto melhor; se o não encontrar, é porque a sorte não o ajudou. Quanto ao que se refere a Sartre, não afirmo que saiba o que ele quer dizer, e não gostaria que se pensasse que o estou interpretando; de minha parte, acho que a idéia de que o mundo tem uma explicação é um erro. Não vejo porque razão se deveria esperar que tivesse, e parece-me que o que o senhor diz acerca do cientista é um exagero.
COPLESTON:
A mim, parece-me que o cientista alimenta tal suposição. Quando faz seus experimentos, tendo em vista encontrar alguma verdade particular, jaz, atrás do experimento, a pressuposição de que o universo não é simplesmente uma coisa sem continuidade. Há possibilidade de descobrir-se a verdade mediante experimento. O experimento pode ser mau, pode não conduzir a resultado algum, ou não conduzir ao resultado que ele deseja, mas, de qualquer modo, existe a possibilidade, através do experimento, de que descubra a verdade que ele supõe existir. E isso, parece-me, pressupõe a existência de um universo ordenado e inteligível.
RUSSELL:
Penso que o senhor está generalizando mais do que o necessário. Indiscutivelmente, o cientista presume que determinada coisa talvez possa ser encontrada – e, não raro, a encontra. Não presume que ela será encontrada, e este é um assunto muito importante na física moderna.
COPLESTON:
Bem, eu penso que ele presume ou está inclinado a presumi-lo tacitamente na prática. Pode ser que, para citar o Prof. Heldane, “quando acendo o gás debaixo da caçarola, algumas das moléculas de água se dissipem como vapor, e não haja meio de se descobrir porque farão isso”, mas não se segue daí, necessariamente, que a idéia de acaso deva ser introduzida exceto com relação ao nosso conhecimento.
RUSSELL:
Não, não se segue... pelo menos se posso acreditar no que ele diz. O cientista está descobrindo uma porção de coisas... descobrindo uma porção de coisas que estão acontecendo no mundo, e que são, a princípio, começos de cadeias causais – causas primeiras que não tiveram, em si mesmas, causas. Não presume que tudo tenha uma causa.
COPLESTON:
Claro que há uma causa primeira dentro de um certo e determinado terreno. É relativamente
uma primeira causa.
RUSSELL:
Não penso que o cientista dissesse isso. Se existe um mundo no qual a maior parte das ocorrências, mas não todas, tem causas, ele poderá, então, representar as possibilidades e as incertezas presumindo que a dada ocorrência em que está interessado tem, provavelmente, uma causa. E já que, de qualquer modo, não se obterá mais do que probabilidade, isso já é bastante bom.
COPLESTON:
Pode ser que o cientista não espere obter mais do que uma probabilidade, mas, ao suscitar a questão, pressupõe que a questão da explicação tem um sentido. Mas então o seu ponto de vista geral, Lorde Russell, é que é ilegítimo até mesmo levantar-se a questão da causa do mundo?
RUSSELL:
Sim, esse é o meu ponto de vista.
112
COPLESTON:
Se essa é questão que, para o senhor, não tem sentido, não há dúvida de que é muito difícil
discuti-la, pois não?
RUSSELL:
Sim, é muito difícil. Que é que o senhor diz: passaremos a outra questão?
A experiência religiosa
COPLESTON:
Perfeitamente. Bem, talvez me fosse dado dizer uma palavra sobre a experiência religiosa; depois, poderemos passar à experiência moral. Não considero a experiência religiosa como uma prova estrita da existência de Deus, de modo que o caráter da discussão muda um tanto, mas acho que é verdadeiro dizer-se que a melhor explicação dela é a existência de Deus. Por experiência religiosa, não me refiro simplesmente ao fato de o indivíduo sentir-se bom. Refiro-me a uma percepção amorosa, mas não clara, de algum objeto que parece, irresistivelmente, ao experimentador, algo que transcende o seu próprio ser, algo que transcende todos os objetos normais da experiência, algo que não pode ser descrito ou conceitualizado, mas de cuja realidade é impossível duvidar-se – pelo menos durante a experiência. Eu afirmaria que isso não pode ser explicado adequadamente, e de maneira cabal, como coisa simplesmente subjetiva. A experiência básica verdadeira, seja como for, é mais facilmente explicada com base na hipótese de que há verdadeiramente alguma causa objetiva de tal experiência.
RUSSELL:
Eu responderia a esse tipo de argumento que todo argumento que parte de nossos próprios estados mentais para algo que está fora de nós é coisa muito arriscada. Mesmo que todos nós admitamos sua validez, só nos sentimos justificados a fazê-lo, penso eu, devido ao consenso geral. Se há uma multidão numa sala, e se lá houver um relógio, todos podem ver o relógio. O fato de que todos podem vê-lo tende a fazer com que pensem que não se trata de uma alucinação – ao passo que essas experiências religiosas tendem a ser muito pessoais.
COPLESTON:
Sim, com efeito o são. Estou falando, estritamente, de experiência mística própria, e não incluo, por certo, diga-se de passagem, aquilo a que se dá o nome de visões. Refiro-me. simplesmente à experiência, e admito inteiramente que é ela indefinível, do objeto transcendente ou do que parece ser um objeto transcendente. Lembro-me de ter ouvido Julian Huxley dizer, numa conferência, que a experiência religiosa, ou experiência mística, é uma experiência tão verdadeira como a de a gente se apaixonar, ou apreciar poesia ou arte. Bem, creio que, quando apreciamos poesia ou arte, apreciamos poemas definidos, ou uma obra de arte definida. Se nos apaixonamos, bem... apaixonamo-nos por alguém e não por ninguém.
RUSSELL:
Permita-me interrompê-lo um momento. Nem sempre, de modo algum, é esse o caso. Novelistas japoneses jamais acham que conseguiram êxito a menos que um grande número de pessoas reais se suicide por amor à heroína imaginária.
113
COPLESTON:
Bem, devo aceitar sua palavra quanto ao que se refere a tais acontecimentos no Japão. Não me suicidei, alegra-me dizê-lo, mas fui grandemente influenciado, ao dar dois passos importantes em minha vida, por duas biografias. Contudo, devo dizer que vejo pouca semelhança entre a influência real exercida sobre mim por tais livros e a experiência mística propriamente dita, isto é, até o ponto em que um estranho (outsider) pode ter uma idéia de tal experiência.
RUSSELL:
O que quero dizer é que não consideraríamos a Deus como estando no mesmo nível das
personagens de uma obra de ficção. Admite o senhor que há aqui uma distinção?
COPLESTON:
Certamente. Mas eu diria que a melhor explicação não parece ser a explicação puramente subjetivista. É possível, por certo, uma explicação subjetivista, no caso de certas pessoas em que há pouca relação entre a experiência e a vida, no caso de pessoas iludidas, alucinadas e assim por diante. Mas quando deparamos com o que se poderia chamar o tipo puro, digamos São Francisco de Assis; quando se tem uma experiência que resulta num extravasamento de amor criativo e dinâmico, a melhor explicação disso, parece-me, é a existência real de uma causa objetiva da experiência.
RUSSELL:
Não estou afirmando, de maneira dogmática, que não haja um Deus. O que estou dizendo é que não sabemos que há. Só posso me apoiar no que está registrado, como deveria apoiar-me em outros registros, e verifico que muita coisa é registrada – e estou certo de que o senhor não aceitaria coisas acerca de demônios, diabos e coisas semelhantes. No entanto, essas coisas estão registradas exatamente no mesmo tom, e exatamente com a mesma convicção. Pode-se dizer do místico, se sua visão é verídica, que ele sabe que existem demônios. Mas eu não sei se existem.
COPLESTON:
Mas, certamente, no caso dos demônios, tem havido gente que fala principalmente de visões, aparições, anjos ou demônios, ou coisas assim. Eu excluiria as aparições visuais, pois penso que elas podem ser explicadas independentemente da existência do objeto que tais pessoas supõem ver.
RUSSELL:
Mas o senhor não acha que há abundantes registros de casos de pessoas que acreditam ter ouvido Satanás falar-lhes no fundo de seus corações, exatamente do mesmo modo que os místicos afirmam que se trata de Deus? E não me refiro agora a uma visão exterior: refiro-me a urna experiência puramente mental. Isso parece ser urna experiência da mesma espécie daquela que os místicos experimentam com respeito a Deus, e não vejo de que maneira, através do que os místicos nos dizem, possamos obter qualquer argumento a favor da existência de Deus que não seja igualmente um argumento a favor de Satanás.
COPLESTON:
Concordo inteiramente, sem dúvida, que certas pessoas imaginaram ou pensaram ter ouvido ou visto Satanás. Mas não tenho desejo de passar a negar a existência de Satanás. Não acho, porém, que tais pessoas hajam dito que sentiram a Satanás da maneira precisa pela qual os místicos disseram que sentiram a Deus. Tomemos o caso de um não-cristão: Plotino. Admite ele que tal experiência é inexprimível; o objeto é um objeto de amor e, por conseguinte, não um objeto que cause horror e aversão. E o efeito dessa experiência ressalta, ou, eu poderia dizer, a validade da
114
experiência ressalta aos nossos olhos no próprio registro da vida de Plotino. De qualquer modo, é mais razoável supor-se que ele teve tal experiência, se estivermos dispostos a aceitar a descrição de Porfírio quanto à bondade e a benevolência de Plotino.
RUSSELL:
O fato de uma crença exercer bom efeito moral sobre um homem não constitui prova alguma
a favor de sua veracidade.
COPLESTON:
Não, mas se pudesse verdadeiramente provar que a crença foi de fato responsável por uma boa influência sobre a vida de um homem, eu consideraria tal fato como uma pressuposição a favor de alguma verdade, pelo menos da parte positiva da crença, senão de sua inteira validade. Mas, de qualquer modo, estou usando o caráter da vida como prova a favor da veracidade e da sanidade
do místico, mais do que uma prova da verdade de suas crenças.
RUSSELL:
Mas mesmo isso não considero como constituindo qualquer prova. Eu próprio passei por experiências que modificaram profundamente meu caráter. E julguei, pelo menos no momento, que tal modificação era para o bem. Tais experiências foram importantes, mas não implicavam a existência de algo exterior a mim, e não acho que, se eu tivesse pensado que implicavam, o fato de terem tido um efeito salutar constituísse qualquer prova de que eu estava certo.
COPLESTON:
Não, mas penso que o efeito salutar atestaria a sua veracidade ao descrever sua experiência. Rogo-lhe que se lembre de que não estou dizendo que a meditação de um místico ou a interpretação de sua experiência deveriam estar imunes de discussão ou crítica.
RUSSELL:
Evidentemente, o caráter de um jovem pode ser – e com freqüência o é – muitíssimo influenciado pela leitura acerca de um grande homem da história, e pode muito bem acontecer que esse grande homem seja um mito e não exista; não obstante, o rapaz é influenciado para sempre, como se o personagem existisse. Tem havido gente assim. As Vidas de Plutarco apresentam, como exemplo, a Licurgo, que certamente não existiu, mas a gente poderia ser muito influenciado pela leitura de Licurgo, certo de que ele havia de fato existido. Seríamos, assim, influenciados por um objeto que amaríamos, mas que não seria um objeto existente.
COPLESTON:
Concordo com o senhor em que, claro, um homem poderia ser influenciado por um personagem de ficção. Sem entrar na questão do que é que precisamente o influencia (eu diria um valor real), acho que a situação de tal homem e do místico são diferentes. Afinal de contas, o homem que é influenciado por Licurgo não tem a irresistível impressão de que experimentou, de algum modo, a realidade última.
RUSSELL:
Não creio que o senhor haja apreendido perfeitamente o meu ponto de vista acerca desses personagens históricos... desses personagens não históricos da história. Não estou pensando no que o senhor chama de efeito sobre a razão. Estou pressupondo que o jovem leia acerca desse personagem e, julgando-o real, o ame – o que é muito fácil de acontecer. No entanto, estará amando a um fantasma.
115
COPLESTON:
Em certo sentido, está amando um fantasma, não há dúvida... no sentido, quero dizer, em que está amando X ou Y, que não existem. Mas, ao mesmo tempo, penso eu, não é ao fantasma como tal que o jovem ama; ele percebe um valor real, uma idéia que reconhece como objetivamente válida – e é isso que desperta o seu amor.
RUSSELL:
Bem, nesse sentido, tínhamos antes os personagens de ficção.
COPLESTON:
Sim, em certo sentido, não há dúvida, está amando um fantasma. Mas, em outro sentido,
está amando aquilo que percebe ser um valor.
O argumento moral
RUSSELL:
Mas o senhor certamente não está agora dizendo que tem relação com Deus tudo o que é bom, ou a soma total do que é bom... o sistema do que é bom, e que, por conseguinte, quando um jovem ama algo que é bom está amando a Deus, pois não? É isso que está dizendo? – pois, se o for, isso está a exigir alguma discussão.
COPLESTON:
Não digo, por certo, que Deus é a soma total ou sistema do que é bom no sentido panteísta. Não sou panteísta, mas penso que tudo o que é bom reflete Deus e procede d’Ele, de modo que, em certo sentido, aquele que ama o que é verdadeiramente bom, ama a Deus, mesmo que ele não atente em Deus. Mas, ainda assim, concordo em que a validade de tal interpretação da conduta de um homem depende, obviamente, do reconhecimento da existência de Deus.
RUSSELL:
Sim, mas esse é um ponto a ser provado.
COPLESTON:
Perfeitamente, mas encaro o argumento metafísico como probatório. Neste ponto, porém,
divergimos.
RUSSELL:
Veja o senhor: acho que certas coisas são boas e outras são más. Amo as coisas que são boas, e detesto as que são más. Não digo que essas coisas são boas porque participam da bondade Divina.
COPLESTON:
Sim, mas qual é a sua justificativa para distinguir entre as coisas boas e más, e como é que
considera a distinção existente entre elas?
RUSSELL:
Não tenho qualquer justificativa, assim como não a tenho quando distingo entre o azul e o amarelo. Qual a minha justificativa para distinguir entre o azul e o amarelo? Posso ver que são diferentes.
116
COPLESTON:
Bem, essa é uma excelente justificativa, concordo. O senhor distingue entre o azul e o
amarelo porque os vê. Assim sendo, por meio de que faculdade distingue o bem do mal?
RUSSELL:
Pelos meus sentimentos.
COPLESTON:
Pelos seus sentimentos. Bem, era o que eu estava perguntando. Julga o senhor que o bom e o
mau se referem simplesmente ao sentimento?
RUSSELL:
Por que, então, um tipo de objeto parece amarelo e o outro verde? Posso, mais ou menos, dar uma resposta a isso graças aos físicos e, quanto ao motivo por que julgo certas coisas boas e outras más, provavelmente existe uma resposta da mesma espécie, mas ela não seguiu a mesma direção e não posso dar-lhe.
COPLESTON:
Bem, tomemos, por exemplo, a conduta do comandante de Belsen. Essa conduta parece ao senhor tão indesejável e má quanto a mim. Supomos que, para Adolf Hitler, ela parecia algo bom e desejável. Creio que o senhor tem de admitir que para Hitler ela era boa e, para o senhor, má.
RUSSELL:
Não. Eu não iria tão longe assim. Quero dizer: acho que as pessoas podem cometer erros tanto nisso como em outras coisas. Se tivermos icterícia, veremos coisas amarelas que não são amarelas. Estaremos cometendo um engano.
COPLESTON:
Sim, podemos cometer enganos, mas poderemos cometê-los, tratando-se apenas de uma questão de referência a um sentimento ou emoção? Nesse caso, Hitler seria o único juiz possível, quanto ao que se referia às suas emoções.
RUSSELL:
Seria perfeitamente certo dizer-se que isso apelava para as suas emoções, mas podemos dizer, entre outras várias coisas, que, se uma coisa como aquela exercia influência sobre as emoções de Hitler, exercem elas uma influência diversa sobre as minhas emoções.
COPLESTON:
De acordo. Mas então, a seu ver, não há nenhum critério objetivo, fora do sentimento, para se
condenar a conduta do comandante de Belsen?
RUSSELL:
Não mais do que o critério que existe para se condenar as pessoas daltônicas, que estão exatamente na mesma situação. Por que razão condenamos intelectualmente a pessoa daltônica? Não é, acaso, porque constitui minoria?
COPLESTON:
Eu diria que é porque lhe falta algo que pertence, normalmente, à natureza humana.
RUSSELL:
Sim, mas se tais pessoas constituíssem maioria não diríamos isso.
117
COPLESTON:
O senhor diria, então, que não existe critério algum, fora do sentimento, que nos permita distinguir entre a conduta do comandante de Belsen e a conduta, digamos, de Sir Stafford Cripps ou do Arcebispo de Cantuária.
RUSSELL:
Referirmo-nos apenas ao sentimento é simplificar, de maneira um tanto excessiva, a coisa. Tem-se de levar em conta os efeitos das ações e os nossos sentimentos com respeito a tais ações. Não nos é possível discutir sobre isso se dissermos que certas espécies de ocorrências são da espécie de que gostamos, e certas outras da espécie de que não gostamos. Podemos muito bem dizer que as conseqüências das ações do comandante de Belsen foram dolorosas e desagradáveis.
COPLESTON:
Foram, certamente, muito penosas e desagradáveis, concordo, para todas as pessoas que se
achavam no acampamento.
RUSSELL:
Sim, mas não apenas para as pessoas que estavam no acampamento: também para as que se
achavam fora a contemplá-las.
COPLESTON:
Sim, perfeitamente certo quanto à imaginação. Mas esse é o meu ponto de vista. Não as aprovo, e sei que o senhor não as aprova, mas não vejo em que se baseia o senhor para as não aprovar, porque, afinal de contas, para o próprio comandante de Belsen, eram agradáveis tais ações.
RUSSELL:
Sim, mas, nesse caso, não preciso de outro motivo que aquele que me guia na percepção das cores. Há pessoas que pensam que tudo é amarelo, há pessoas que sofrem de icterícia, e não concordo com essas pessoas. Não posso provar que as coisas não são amarelas – não há nenhuma prova disso – mas a maioria das pessoas concorda comigo que não são amarelas, assim como a maioria das pessoas concorda comigo que o comandante de Belsen estava cometendo erros.
COPLESTON:
O senhor aceita alguma obrigação moral?
RUSSELL:
Eu teria de estender-me demasiado, para responder a isso. Praticamente falando – sim. Teoricamente falando, teria de definir com um pouco mais de cuidado o que entendo por obrigação moral.
COPLESTON:
Acha o senhor que a palavra “dever” (ought) tem simplesmente uma implicação emocional?
RUSSELL:
Não, não o acho, pois que, como o senhor vê, eu dizia, ainda há pouco, que se tem de levar em conta as conseqüências, e penso que a conduta correta é aquela que produziria, provavelmente, o maior equilíbrio possível dos valores intrínsecos de todos os atos possíveis em dadas circunstâncias, e que se tem de levar em conta os efeitos prováveis de nossas ações, ao se considerar o que é direito.
OPLESTON:
Eu trouxe à baila a obrigação moral porque acho que podemos nos aproximar, desse modo, da questão da existência de Deus. A imensa maioria da raça humana sempre fez, e sempre terá de fazer, alguma distinção entre o bem e o mal. A imensa maioria, penso eu, tem uma certa consciência de uma obrigação na esfera moral. É minha opinião que a percepção de valores e a consciência da lei moral e da obrigação são melhores explicadas através da hipótese de um terreno de valor transcendente e de um autor da lei moral. Por “autor da lei moral”, não me refiro a um autor arbitrário da lei moral. Penso, com efeito, nos ateus modernos, que, de modo inverso, afirmaram que “não existe Deus”; é bastante lógico, por conseguinte, que não existem valores absolutos, nem lei absoluta.
RUSSELL:
Não me agrada a palavra “absoluto”. Não que haja coisa alguma absoluta. A lei moral, por exemplo, está sempre mudando. Em dado momento do desenvolvimento humano, quase toda a gente considerava o canibalismo como um dever.
COPLESTON:
As diferenças de opinião, em juízos morais particulares, não me parecem constituir qualquer argumento conclusivo contra a universalidade da lei moral. Suponhamos, por um momento, que não existam valores morais absolutos, mesmo na hipótese de se esperar que indivíduos e grupos diferentes devam gozar de vários graus de percepção quanto a tais valores.
RUSSELL:
Sinto-me inclinado a pensar que “a obrigação de algo” (ought), o sentimento que se tem a
respeito de “ought” é um eco do que nos disseram nossos pais ou nossos preceptores.
COPLESTON:
Duvido que se possa explicar a idéia de “algo que se tem obrigação de fazer” (ought) simplesmente em termos de preceptores e pais. Não vejo, realmente, como é que isso possa ser transmitido a alguém senão por si mesmo, pela coisa em si. Parece-me a mim que, se existe uma ordem moral que se impõe à consciência humana, essa ordem é ininteligível, separada da existência de Deus.
RUSSELL:
Nesse caso, o senhor tem de dizer uma de duas coisas: que Deus só fala a uma porcentagem mínima da humanidade – que acontece incluir o senhor – ou, então, que Ele, deliberadamente, diz coisas que não são verdadeiras, ao falar à consciência dos selvagens.
COPLESTON:
Bem, não estou insinuando que Deus realmente dite preceitos morais à consciência. As idéias das criaturas humanas, quanto ao cumprimento da lei moral, dependem, certamente, em grande parte, da educação e do meio em que vivem, e o homem tem de usar de sua razão ao ajuizar acerca da validade das verdadeiras idéias morais de seu grupo social. Mas a possibilidade de criticar o código moral aceito pressupõe que existe um padrão objetivo, que há uma ordem moral ideal, que se impõe por si mesma (refiro-me ao caráter obrigatório daquilo que pode ser reconhecido). Penso que o reconhecimento dessa ordem moral ideal faz parte do reconhecimento de contingência. Implica a existência de um fundamento real de Deus.
119
RUSSELL:
Mas o legislador sempre foi, parece-me, o pai, ou a mãe da gente, ou alguma outra pessoa. Há uma porção de legisladores terrenos responsáveis por isso – e isso explicaria porque as consciências das pessoas são tão surpreendentemente diferentes em época e lugares diferentes.
COPLESTON:
Isso nos ajuda a explicar diferenças quanto à percepção de valores morais diferentes, as quais, de outro modo, seriam inexplicáveis. Ajudar-nos-á a explicar diferenças, quanto à lei moral, no conteúdo dos preceitos, tais como são aceitos por esta ou aquela nação, ou por este ou aquele indivíduo. Mas a sua forma, aquilo a que Kant chama de imperativo categórico, o “ought”, não vejo, realmente, de que maneira poderia ser transmitido a alguém por uma preceptora ou pelos pais, pois que não há quaisquer termos possíveis, tanto quanto me é dado ver, pelos quais possa ser explicada. Não pode ser definida por outra forma senão por si própria, pois que, uma vez definida em outros termos que não os seus, se dissipa. Já não é mais um “dever” (ought) moral. É uma outra coisa.
RUSSELL:
Bem, penso que a consciência que se tem de “ought” é o resultado da desaprovação imaginada
de alguém. E acho que isso é o que “ought” significa.
COPLESTON:
A mim me parece que os costumes exteriores, tabus e coisas desse gênero, são os que podem ser mais facilmente explicados mediante simples referência a ambiente e educação, mas tudo isso, penso eu, pertence ao que chamo a questão do direito, ao conteúdo. A idéia de um dever moral, como tal, jamais pode ser transmitida a alguém pelo chefe tribal ou por quem quer que seja, pois que não existem outros termos pelos quais possa ser transmitida...
(Russell intervém)
RUSSELL:
Mas não vejo razão alguma para se dizer que... O que quero dizer é que todos nós conhecemos o que se refere a reflexos condicionados. Sabemos que se um animal é habitualmente castigado por um determinado ato, abster-se-á, depois de algum tempo, de praticá-lo. Não creio que o animal se abstenha por haver dito, em seu íntimo: “Meu dono ficará zangado, se eu fizer isso”. Sente apenas que aquilo é uma coisa que não deve fazer. Eis aí o que podemos fazer quanto ao que a nós se refere – e nada mais.
COPLESTON:
Não vejo razão para supor que um animal tenha consciência de uma obrigação moral; nós, certamente, não consideramos um animal responsável moralmente por seus atos de desobediência. Mas o homem tem consciência de sua obrigação e dos deveres morais. Não vejo razão para que se suponha que se poderia impor condições a todos os homens como se “condiciona” um animal, e não creio que se desejasse realmente fazê-lo, mesmo que se pudesse. Mesmo que o “behaviorismo” fosse verdadeiro, não haveria nenhuma distinção moral objetiva entre o imperador Nero e São Francisco de Assis. Não me é possível deixar de sentir, Lorde Russell, que o senhor considera a conduta do comandante de Belsen como sendo igualmente repreensível, e que o senhor jamais, em circunstância alguma, agiria desse modo, mesmo que achasse, ou tivesse razão para achar, que talvez a soma total da felicidade humana pudesse ser aumentada, se certas pessoas fossem tratadas daquela maneira abominável.
120
RUSSELL:
Não. Eu não imitaria a conduta de um cão louco. Mas isso não tem qualquer relação com a
questão que estamos discutindo.
COPLESTON:
Não tem, com efeito. Mas se o senhor estivesse dando urna explicação utilitária do bem e do mal segundo suas conseqüências, talvez pudesse afirmar – como creio que certos nazistas mais extremados o fariam – que, embora fosse lamentável agir desse modo, o resultado, no fim, conduziria a uma maior felicidade. Não creio que o senhor afirmasse tal coisa, pois não? Penso que o senhor diria que tal conduta é errada... e isso por si mesmo, inteiramente independente de poder ou não aumentar a soma total da felicidade humana. Nesse caso, se está preparado para dizer isso, devo pensar que o senhor deve ter algum critério para julgar o que é certo e o que é errado – o que, de qualquer modo, isso está fora de qualquer critério de sentimento. Para mim, tal admissão resultaria, em última análise, na admissão de um critério último de valor baseado em Deus.
RUSSELL:
Acho que talvez estejamos nos metendo em confusão. Eu não julgaria movido por um sentimento direto acerca do ato, mas antes por um sentimento quanto às suas conseqüências. E não posso admitir a existência de quaisquer circunstâncias em que certas espécies de conduta, tais como as que o senhor esteve discutindo, seriam boas. Não posso imaginar circunstâncias em que tivessem efeito benéfico. Penso que aqueles que assim julgam estão enganando a si próprios. Mas se existissem circunstâncias em que elas tivessem efeito benéfico, então eu talvez fosse obrigado a dizer: “Bem, não me agradam essas coisas, mas tenho de concordar com elas”, assim como concordo com o Direito Penal, embora me desagrade profundamente o castigo.
COPLESTON:
Bem, talvez já seja tempo de resumir o meu ponto de vista. Defendi dois pontos. Primeiro, que a existência de Deus pode ser provada filosoficamente por um argumento metafísico; segundo, que é somente a existência de Deus que dará sentido à experiência moral e à experiência religiosa do homem. Pessoalmente, acho que a sua maneira de explicar os juízos morais do homem conduz, inevitavelmente, a urna contradição entre o que a sua teoria exige e os seus próprios juízos espontâneos. Ademais, sua teoria invalida a obrigação moral e, assim, não constitui uma explicação. Quanto ao argumento metafísico, estamos, ao que parece, de acordo, ao achar que o mundo consiste simplesmente de seres contingentes. Isto é, de seres que não podem, nenhum deles, explicar sua própria existência. Diz o senhor que a série de acontecimentos não precisa de explicação; eu digo que se não existisse um ser necessário – um ser que deve existir e que não possa não-existir – nada existiria. A infinidade da série de seres contingentes, mesmo se provada, seria irrelevante. Algo existe; por conseguinte, deve haver alguma coisa responsável por esse fato, um ser que esteja fora da série dos seres contingentes. Se o senhor houvesse admitido isso, poderíamos, então, ter discutido se esse ser é pessoal, bom, é assim por diante. Quanto ao ponto verdadeiramente em discussão se existe ou não um ser necessário – estou de acordo, creio eu, com a grande maioria dos filósofos clássicos.
Diz o senhor, penso eu, que os seres existentes simplesmente aí estão, e que nada justifica que eu suscite a questão da explicação da sua existência. Mas eu gostaria de ressaltar que tal ponto de vista não pode ser substanciado pela análise lógica; expressa uma filosofia que necessita, ela mesma, de prova. Penso que chegamos a um impasse porque nossas idéias de filosofia são
121
radicalmente diferentes; parece que aquilo a que chamo uma parte da filosofia, o senhor chama o todo, pelo menos quanto ao que diz respeito ao que há de racional na filosofia. Parece-me, se me perdoa dizê-lo, que, além de seu próprio sistema lógico – a que o senhor chama “moderno” em oposição à lógica antiquada (um adjetivo tendencioso) – o senhor defende uma filosofia que não pode ser substanciada pela análise lógica. Afinal de contas, o problema da existência de Deus é um problema existencial, enquanto que a análise lógica não trata diretamente dos problemas de existência. De modo que, parece-me, declarar que os termos implicados num conjunto de problemas não são significativos porque não são exigidos ao tratar-se de outro conjunto de problemas, é estabelecer, desde o começo, a natureza e a extensão da filosofia, e esse é, em si, um ato filosófico que está a exigir justificação.
RUSSELL:
Bem, eu gostaria, de minha parte, de dizer apenas algumas palavras, à guisa de resumo. Primeiro, quanto ao que concerne ao argumento metafísico: não admito as conotações de um termo como “contingente” ou a possibilidade de explicação no sentido que lhe dá o Padre Copleston. Penso que a palavra “contingente” sugere inevitavelmente a possibilidade de algo que não teria isso que o senhor poderia chamar de caráter acidental de apenas “estar aí”, e não creio que isso seja verdadeiro, exceto no sentido puramente causal. Pode-se às vezes, dar uma explicação causal de uma coisa como sendo o efeito de uma outra coisa, mas isso é simplesmente referir uma coisa a outra, e não há – a meu ver – explicação alguma no sentido dado pelo Padre Copleston, como, também, não existe qualquer sentido em se chamar às coisas “contingentes”, pois que não há outra coisa que elas pudessem ser. Eis aí o que eu diria a esse respeito, mas gostaria de acrescentar ainda algumas palavras com referência à acusação do Padre Copleston de que encaro a lógica como constituindo toda a filosofia – o que não é, de modo algum, o caso. De modo algum considero a lógica como constituindo toda a filosofia. Acho que a lógica é uma parte essencial da filosofia, e que a lógica tem de ser usada na filosofia – e penso que, quanto a isso, ele e eu estamos de acordo. Quando a lógica que ele usa era nova – isto é, no tempo de Aristóteles, precisou haver muito barulho em torno dela; Aristóteles fez muito barulho a respeito de tal lógica. A lógica em que creio é relativamente nova; mas não é certo que eu creia, de modo algum, que ela constitua toda a filosofia. Não é isso que penso. O que penso é que ela é uma parte importante da filosofia, e quando digo que não encontro sentido nesta ou naquela palavra, isso é um ponto de vista acerca de um pormenor, baseado no que verifiquei acerca dessa determinada palavra, ao refletir sobre ela. Não é um ponto de vista geral, de que todas as palavras usadas na metafísica são tolices ou coisa semelhante – coisa que, na verdade, não afirmo.
Quanto ao que se refere ao argumento moral, verifico, ao estudar antropologia ou história, que há pessoas que julgam seu dever praticar atos que considero abomináveis e, certamente, não posso, por conseguinte, atribuir origem Divina à questão da obrigação moral, o que o Padre Copleston não me pede que faça; mas acho que mesmo a forma de obrigação moral, quando nos incite a comer a carne de nosso pai ou coisas semelhantes, não parece ser uma coisa muito bela e nobre – e, por conseguinte, não posso atribuir uma origem Divina a esse sentimento de obrigação moral, o qual, penso, é facilmente explicável de outras maneiras inteiramente diversas

Un papiro revolucionario: 7Q5

Entrevista al p. José O'Callaghan, S.J.

por Germán Mckenzie González
Lima, Mayo – Agosto 1995
Los hallazgos de las 11 cuevas de Qumrán cerca del Mar Muerto, en Israel, ocurridos de 1947 a 1956, han representado ciertamente un acontecimiento de la mayor importancia para la mejor comprensión de la Sagrada Escritura y del ámbito histórico en el que se desarrolló la Iglesia de la primera hora.
Se trata del más grande descubrimiento de manuscritos antiguos. Son textos de la biblioteca de la comunidad de Qumrán, una suerte de monasterio en el que, en opinión de los más destacados especialistas, un sector del grupo de los esenios llevaba una vida dedicada al trabajo y la oración. Sus habitantes pertenecían a uno de los principales grupos religiosos en que se dividía el judaísmo anterior a la destrucción del Templo de Jerusalén, en el año 70 d.C.
La casi totalidad de los textos y fragmentos contenidos en las 11 cuevas del complejo qumránico está redactada en hebreo y arameo y son pergaminos (es decir, pieles tratadas utilizadas para escribir). Sólo la cueva 7 -descubierta en 1955- presenta la particularidad de contener en su totalidad papiros (una suerte de papel confeccionado en base a la planta cyperus papyrus), y además escritos en griego.
Es precisamente esta cueva la que llamó la atención del experto papirólogo José O'Callaghan, sacerdote jesuita español que inició su investigación en ella cuando elaboraba un catálogo de los papiros que contienen secciones de la llamada Versión de los Setenta, una traducción del Antiguo Testamento al griego preparada en Alejandría por los judíos en el siglo III a.C., para su utilización entre sus hermanos de religión más familiarizados con el griego que con el hebreo o arameo.
Apasionado por la investigación papirológica, el p. O'Callaghan se sumergió de lleno en la cueva 7, familiarizándose con los fragmentos allí contenidos. Un día comenzó a aprovechar sus ratos libres para -como él mismo lo dice- «entretenerse» ensayando una identificación del papiro inventariado con el número 5, es decir, determinar de qué libro del Antiguo Testamento formaba parte ese trocito de papiro. Éste estaba datado a más tardar como del año 50 d.C. y mide 3.9 cm. en su parte más alta y 2.7 cm. de ancho. El punto de partida para el estudioso fue la combinación de letras «nnes», que aparecía claramente legible en la cuarta línea.
Tras sucesivos intentos fallidos en los lugares que consideraba más probables, tuvo la idea de buscar entre la literatura del Nuevo Testamento. Al principio no encontró nada, pues su clave de búsqueda se orientaba hacia las genealogías, pero luego vino la sorpresa. En un primer momento el resultado lo mantuvo entre el asombro y la incredulidad: el 7Q5 correspondía a Mc 6,52-53. Tras nuevas y más rigurosas investigaciones, y reiteradas interconsultas con otros expertos, en 1972 publicó un artículo en el que explicaba los resultados de su trabajo. Éste se extendió al intento de hallar otros fragmentos neotestamentarios, por consejo de académicos con los que iba consultando. Al lado de la clara identificación del 7Q5, buena parte de los otros intentos de identificación de los papiros griegos de la cueva 7 quedaban algo inseguros. Se inició así una intensa polémica, sorprendente por la aspereza y la abundancia de argumentos ad hominem más que científicos utilizados por algunos de sus opositores. Posteriormente se hicieron mayores estudios. Hoy, luego de más de 20 años, las rigurosas investigaciones de O'Callaghan vienen siendo respaldadas por más y más papirólogos de renombre. A pesar de ello todavía ofrecen resistencia numerosos biblistas, qumranólogos y críticos textuales. Las conclusiones definitivas del p. O'Callaghan, a publicarse hacia el mes de setiembre de este año, no han hecho sino confirmar aquella identificación inicial del 7Q5 como correspondiente a Mc 6,52-53.
Doctor en Filosofía por la Universidad de Madrid, Doctor en Filología Clásica por la Universidad de Milán, el p. O'Callaghan ha enseñado en importantes centros de estudio europeos. Es profesor emérito del Pontificio Instituto Bíblico de Roma, donde enseñó Papirología y Paleografía Griega, y Crítica textual. Allí fue también Decano de la Facultad Bíblica. Actualmente se desempeña como Director del Seminario de Papirología del Instituto de Teología Fundamental de Sant Cugat del Vallès, en Barcelona.
¿Cuál es la razón de tanto revuelo? ¿Cómo se fue madurando la identificación del 7Q5 hasta las conclusiones definitivas? ¿Qué implicancias tiene para la ciencia bíblica el hallazgo de un fragmento de un texto del Evangelio según San Marcos datado a más tardar como del año 50 de nuestra era? Éstas y otras interrogantes fueron abordadas en la entrevista que amablemente concedió el p. O'Callaghan a «Vida y Espiritualidad».

¿Cómo sintetizaría usted el significado de haber identificado el fragmento 7Q5 con Mc 6,52-53?

El aporte al haber identificado el 7Q5 es la aproximación al Jesús histórico que éste nos permite. Según algunos estudiosos estaba cortada la línea de unión con el Cristo histórico, porque no sabríamos nada de Él. Pero resulta que si ahora tenemos un papiro del año 50 d.C. del Evangelio de San Marcos, como dice muy bien la destacada papiróloga Orsolina Montevecchi, que a lo más está datado unos 20 años después de la muerte del Señor, y si éste también nos habla de tres milagros del Señor, entonces tocamos ya, con el testimonio de un papiro, al Cristo histórico.

¿Podría contarnos algo del camino que ha recorrido desde 1972 y que culmina con la confirmación científica de esta identificación?

Me pasó aquí lo que me ha pasado otras veces, más aún antes, cuando en mi ciencia se trabajaba sin ayuda de la informática y las cosas eran más difíciles. A veces en los momentos de dificultad científica, cuando no se ve clara la salida a un problema y asoma el desánimo, viene una intuición particular que esclarece la situación, que ilumina el camino y halla algo nuevo. Algunos me han preguntado si ha sido una gracia especial de Dios. Y yo respondo: gracia de Dios, sí, porque todo lo que tengo y realizo es en el fondo gracia de Dios, pero no inspiración divina particular. Yo honradamente creo que no. Ha sido una intuición científica, evidentemente, por la cual doy gracias a Dios.
La primera recepción de mi artículo aparecido en la revista Biblica: ¿Papiros neotestamentarios en la cueva 7 de Qumrán?, del año 1972, fue muy polémica. Entonces personas de mucha autoridad científica me dijeron textualmente: «Ni usted ni yo veremos el final de la polémica internacional, porque es fortísima. Va usted contra la opinión internacional». Opinión internacional, por lo demás, ubicada entre la mayor parte de los estudiosos de la Biblia en el campo protestante y en el campo católico.

¿Estamos hablando de la perspectiva de R. Bultmann, que establece una separación entre el Jesús histórico, que sería absolutamente inaccesible, y el Cristo de la fe, que sería para él elaboración de la primera comunidad cristiana y que es aquel que ha llegado a nosotros consignado en el Nuevo Testamento?

Pues, sí. Y entonces, claro, esto es fortísimo. En realidad el papiro es pequeño y ofrecía ciertamente dificultades. Por aquel entonces todo no se acababa de ver totalmente claro.
Al comienzo no contesté los ataques de estudiosos famosos como el profesor Kurt Aland especialmente, los de los especialistas de la Escuela Bíblica de Jerusalén, etc. Ellos me atacaban fuertemente, pero más que argumentos científicos de peso eran ataques personales de gran resonancia internacional. Yo veía, por los argumentos que me permite la ciencia de la papirología, de la que conozco, que no tocaban el meollo de la cuestión. Eran ataques de poco contenido científico papirológico.
Entonces empecé a responder con rigurosidad atendiendo a los argumentos y no a las personas, hasta que me cansé de contestar. Pensaba que perdía tiempo y energías en un debate que planteado en esos términos no valía la pena. En la revista Studia Papyrologica contesté bastante; también en la revista Biblica.
Luego el asunto se durmió porque no recibí respuesta a mis artículos de esclarecimiento. Ya no publicaban nada y se hizo un silencio sobre el tema. Sin interlocutores yo ya no respondía a nadie. El asunto quedó dormido hasta que el papirólogo anglicano Carsten Peter Thiede, profesor alemán, se presentó a mi despacho con su señora cuando yo era Decano de la Facultad Bíblica del Pontificio Instituto Bíblico de Roma, y me dijo que había seguido la polémica y que estaba convencido de que los ataques que había recibido mi hipótesis eran inconsistentes. Él quería elaborar un libro sobre mi identificación.
Después de investigar por su parte, publicó un libro en Alemania del cual se ha hecho, me parece, la quinta edición. En castellano se titula: ¿El manuscrito más antiguo de los Evangelios? El fragmento de Marcos en Qumrán y los comienzos de la tradición escrita del Nuevo Testamento. La obra se ha traducido también al holandés y al italiano. Además Carsten Peter Thiede ha escrito otro libro en inglés, también traducido al francés.
El asunto, como ve, se ha difundido. Se trata de un científico de mucha categoría. Lo conozco y lo respeto mucho, como es natural.
Entonces fue él quien reanudó el tema. Éste estaba dormido, no estaba muerto. Thiede no lo resucitó, sino que más bien lo despertó de nuevo. Y así ha venido toda la nueva época del asunto del 7Q5.

¿Cuál fue la importancia del Simposio realizado en la Universidad de Eichstätt, en Alemania, en octubre de 1991?

Fue grande. Me invitaron pero no quise asistir para que los participantes tuvieran completa libertad de hablar en favor o en contra. Lo que hice fue enviar una carta, que se leyó, agradeciéndoles su interés y ofreciendo mis oraciones para que encontraran la verdad. Allí grandes eminencias estuvieron a favor de la identificación, otros no, pero en general la opinión fue favorable. Me ofrecieron sus trabajos. Eran norteamericanos, alemanes, franceses, belgas... ningún italiano ni español.
Se movieron en un ambiente de alta ciencia internacional, publicando luego unas actas que, en general, estaban a favor de mi posición. Posteriormente F. Rohrhirsch publicó un libro en favor de mi identificación y en contra de la postura del profesor Kurt Aland y su escuela, quienes en su análisis informático de todos los factores relacionados al 7Q5 se habían equivocado al dar un programa a la computadora, y lógicamente la computadora, con un programa equivocado, dio resultados equivocados, inválidos.

Y entonces usted vuelve a asumir el estudio del 7Q5 en profundidad e ingresa a la última etapa que culmina con el libro que publicará en breve...

Con todos esos precedentes y demás aportes -incluso algunos que por ser a veces contrarios a mi tesis no dejo de valorar y agradecer- y con todo el material recogido de los estudiosos que han querido establecer otras identificaciones para el 7Q5, he ido ahondando en mi investigación. Gracias a un cálculo de probabilidades solicitado por mí al eminente profesor Alberto Dou, Doctor en Matemáticas y Miembro de la Real Academia de las Ciencias de Madrid, queda claro que el fragmento del papiro no puede corresponder a otros textos... ¡y es que no casaba con ninguno! Este estudio se consigna largamente en el epílogo del libro que estoy a punto de editar: Los testimonios más antiguos del Nuevo Testamento. Papirología neotestamentaria. Allí declaro y pruebo científicamente, desde un punto de vista papirológico, que el 7Q5 es Mc 6,52-53. Y después incluyo la aportación del estudio matemático del profesor Dou. El asunto está decididamente probado y es decididamente seguro, cosa que también me ha dicho, desde el punto de vista de las posibilidades matemáticas, el mismo profesor Dou.

Hablemos sobre las diferentes objeciones y problemas planteados a la identificación. Según algunos hay un primer obstáculo y es que el estudio se hizo usando como base fotos y no el papiro mismo...

En primer lugar le voy a contestar como papirólogo. A un papirólogo no siempre le es posible viajar a San Petersburgo, a Nueva York o a donde fuera para estudiar un papiro, pues eso supone un presupuesto con el que nosotros no podemos contar. Eso es evidente. Lo que hacemos es, desde nuestros lugares de labores, trabajar por medio de fotografías, a veces infrarrojas. Eso es lo usual en papirología.
En segundo lugar, es completamente falso que yo no haya trabajado con los papiros originales. El hoy cardenal Martini, quien fuera Rector del Pontificio Instituto Bíblico cuando propuse mi identificación por primera vez, en cuanto salió el primer artículo en 1972, me pidió que fuera a trabajar una semana completa al Museo de Jerusalén. Y mi visita a los santos lugares fue en gran parte a la sala de papiros de dicho museo. Tuve, sí, el gran consuelo de celebrar la Misa en el Sepulcro del Señor, que la había preparado ya con tiempo, pero por lo demás lo que hice fue verificar lecturas en el 7Q5, lecturas que eran obvias ya en la fotografía a rayos infrarrojos. Y el mismo año publiqué un largo artículo en la revista Biblica en base a las notas tomadas en las investigaciones directas en el Museo de Jerusalén.
Y es curioso, porque -como he dicho- yo he visto y he trabajado una semana con los originales, C.P. Thiede ha estado 5 veces allá, mientras que el profesor K. Aland, cuya memoria respeto y a quien reconozco lo mucho que ha hecho en el campo de la crítica textual, solamente ha trabajado con fotografías y nunca ha ido a Jerusalén. Fue paradójicamente él quien atacó duramente mi hipótesis diciendo precisamente que mi identificación había sido realizada ¡trabajando solamente con fotografías!

Hay otro asunto papirológico y es el de las tentativas de realizar otras identificaciones del 7Q5 distintas a la suya. Allí está la de la profesora Spottorno con Zac 7,4-5. Otros estudiosos, como Julio Trebolle por ejemplo, en un libro recientemente editado, hablan de que son posibles diferentes identificaciones del papiro. ¿Qué dice usted al respecto?

Que es completamente falso. Y lo digo, como papirólogo, con toda claridad. Todo lo que afirman a nivel papirológico yo lo analizo en profundidad -como le decía- en el epílogo de mi libro. Esas alternancias que proponen, como papirólogo... ¡da pena verlas! Parece que aquí quieren, más que iluminar, desorientar y hablar por hablar. ¡Se han propuesto como identificaciones textos que no casan en manera alguna!
Siempre he dicho, desde el comienzo, que si a mí me prueban que esto no es del Evangelio de San Marcos, yo lo acepto en seguida. Pero han querido distorsionar la realidad... En la obra que está a punto de salir tengo un apartado llamado: «Presupuestos científicos para la identificación». Y según lo que allí expongo se ve que es evidente que en las propuestas de sus alternancias no se ha tenido en cuenta lo más elemental de la metodología científica. Y esto lo digo de manera absoluta.

En concreto, de qué estamos hablando... ¿de letras que no existen en el papiro original?

Cuando uno hace una identificación, si es verdadera, ésta se acomoda a lo que se ve en el papiro, a la disposición de las letras y demás. Si la identificación no se acomoda a lo que se ve en el papiro, uno duda en seguida y dice: «Esto no es el papiro, sino otra cosa». Estas significaciones alternativas que han propuesto en verdad dan pena en el plano científico. En el caso de la profesora Spottorno, a quien a nivel personal respeto mucho, ella reconstruye en base al 7Q5 un pasaje que no es igual al de Zacarías con el que pretende identificarlo, sino una especie de paráfrasis del mismo... Así pues, si no es el mismo pasaje, ¡cómo identificarlo con él!

En estas pretendidas identificaciones, ¿se respeta la «verticalidad de las letras» que se deriva de la medida esticométrica (número de letras por línea) del rollo al que el papiro perteneció?

No, en modo alguno. Ni la «verticalidad de las letras», ni la lectura. Porque además de que no se acomodan al papiro, las letras que proponen no se ven en el mismo. No digo sólo que completas, ni siquiera incompletas, ni siquiera rasgos.
En papirología las letras completas no tienen ninguna dificultad; las incompletas pueden ser de lectura segura o de lectura incierta. Pero si se encuentra en un documento antiguo, por ejemplo, en nuestro alfabeto, un triángulo arriba, se completan las diagonales hacia abajo y se dice que es una «A». Pero si se encuentra un triángulo no se puede poner allí una «S». ¡Pues estas supuestas identificaciones alternativas hacen cosas así, es increíble!

Otra objeción es aquella que afirma que el papiro es demasiado pequeño para poder hacer un trabajo serio con él...

Esto a uno que no sea papirólogo le puede llamar la atención, pero a un papirólogo no le llama la atención porque hay papiros más pequeños, como por ejemplo el correspondiente a la Samia (cuyo código es P. Oxy. XXXVIII 2831), obra de Menandro, que mide 2.4 cm. por 3.3 cm. Para su identificación el papirólogo británico E.G. Turner modifica el texto y realiza un cambio fonético que no se encuentra en ninguna otra. Esta identificación ha sido aceptada por todos.
Hay otros ejemplos. El papiro neotestamentario publicado por C.P. Thiede, de la colección Bodmer, es muy pequeñito. Además está también el caso del papiro que fue identificado en la cueva 7 de Qumrán como del Antiguo Testamento, de la Carta de Jeremías, en el que se presenta una identificación textual que los identificadores arreglan como pueden, a base de una versión latina. Además las únicas palabras que se leen con toda seguridad allí son oun, «pues», consecutivo, y autous, «a ellos». En todos estos casos nadie ha puesto ninguna dificultad a pesar de ser mucho más pequeños que el 7Q5.

Hay otro asunto respecto del 7Q5 y es el de la letra incompleta que algunos han leído como una «I» y usted ha leído como «N»...

Hay una letra que yo leo como «N» en relación a la cual me dijeron los de la Escuela Bíblica de Jerusalén que aquello era -textualmente- «absurdo». Decían que era absurdo el ver allí el trazo vertical izquierdo de una «N» -la ny mayúscula en griego es como la N en castellano-. Esto se llevó entonces al Departamento de Investigación y Ciencia Forense de la Policía Nacional de Israel, y con aparatos de la tecnología moderna, concretamente con el estéreomicroscopio, vieron que en el trazo vertical al que nos referimos, en la parte superior, descendía parte del trazo oblicuo descendente correspondiente a una N. Está, pues, científicamente establecido.
Ahora, la letra que sigue, por más que algunos vean una eta -que en el alfabeto mayúsculo griego es como una «H»- yo no la veo. Y aunque una eta en ese lugar casa perfectamente con mi identificación, como deseo ser honesto científicamente, cuando el profesor A. Dou hizo los cálculos de probabilidades que le solicité, le dije que en la posición que aquella letra ocuparía, pusiera un punto, porque yo simplemente no la veía.

El hecho de que se haya recurrido a la policía técnica israelí, que no tiene ningún interés en la polémica, garantiza la imparcialidad de la información que sirvió para determinar la letra...

En algo, pero no en lo fundamental. La objetividad de la identificación se garantiza por el rigor científico del trabajo en su conjunto. Le diré otra cosa para que vea la honestidad del procedimiento. Siempre que publiqué un artículo defendiendo mi postura, siempre publiqué la fotografía a rayos infrarrojos. Los que atacaron la identificación nunca publicaron nada, solamente hablaban. Aquí hay ya una diferencia de proceder científico. En este deseo de honestidad se llegó a un extremo de máximo rigor científico de agotar todas las posibilidades de investigación, y se llevó así el papiro a la policía israelí, la misma que es completamente imparcial en la materia propia de estas identificaciones.

Se ha hablado también del cambio de delta por tau que se debe realizar para obtener la identificación. Es un aspecto del que han tratado C. Roberts, Pierre Benoit, M.E. Boismard y otros.

Sí. Y cuando vi que algunos asumían esto como una objeción fui a la biblioteca del Pontificio Instituto Bíblico y escribí una nota que se publicó en la revista Biblica sobre la frecuencia del cambio delta-tau en los papiros bíblicos. Y repito lo que dijo la profesora Montevecchi, una eminencia en papirología: objetar ese cambio de delta-tau casi hace reír por lo admisible del cambio. Y es que de hecho existen numerosos casos del mismo error, incluso hasta en un grabado en griego hecho sobre piedra en tiempos de Herodes, donde es evidente que se había de tener mayor cuidado al escribir.

En el campo de la crítica interna hay otras observaciones. Una de ellas cuestiona la identificación realizada por usted porque exige la eliminación de 9 letras, aquellas correspondientes a la frase «epi ten gen» que aparece en la versión griega más común del Evangelio de San Marcos.

De esto también habla O. Montevecchi. Yo podría contestar con sus palabras, que son mucho más autorizadas que las mías y absolutamente imparciales. Si el cambio delta-tau, como he explicado ya, no significa nada extraño -y hablo como papirólogo-, omisiones como la del «epi ten gen» son un caso conocido y aceptado. El mismo C. Roberts, cuando publicó el papiro p52, aquél famoso del Evangelio de San Juan, realizó su identificación omitiendo unas letras. Y es que en el verso (Jn 18,37-38) hay una repetición, en el texto originario de San Juan, que dice: «Yo para esto (eis touto) he nacido y para esto (eis touto) he venido al mundo» (v. 37). La segunda vez del eis touto, que es lectura ordinaria en el texto conservado hoy, por razones esticométricas la omitió el mismo Roberts, guiado por la «verticalidad de las letras» del texto en el margen derecho del papiro, considerando su texto como una variante más breve. Y es bien conocida la entusiasta acogida y general aceptación de la identificación del p52, correspondiente al año 125.
No quiero hablar de otros varios papiros bíblicos cuya identificación, a pesar de presentar variantes «absurdas», ha sido aceptada por todos los especialistas. Sólo me limito a citar un trozo de papiro (más pequeño que el 7Q5), el p73 (=P Bodmer I). En este insignificante papiro, entre el recto y verso sólo se leen con seguridad ocho letras. Pues bien, la identificación de este papiro con el texto de Mt 25,43 y 26,2-3, ha sido aceptada sin ninguna dificultad. Claro que en este caso el papiro está fechado en el siglo VII.

¿No le parece digno de tener en cuenta el argumento del profesor Metzger que busca cuestionar la identificación porque, afirma, para realizarla se hace necesario aceptar dos excepciones en un pedazo muy pequeño de papiro?

¿Qué excepciones son?

La del cambio delta-tau y la del «epi ten gen».

Esto que dice el profesor Metzger me pareció muy oportuno, porque la personalidad científica de Metzger la respeto mucho. Somos amigos. Pero el argumento que da es desencajar la cuestión. Puede ser que en un trozo de pequeño papiro haya una serie de variantes porque precisamente allí coinciden. Además, en este caso, estas variantes no tienen cuerpo, no tienen volumen suficiente para hacer dudar de la identificación porque no tienen, cada una de ellas, un peso significativo de generación de duda.

¿Es decir que, en resumen, existen papiros aceptados a los cuales se les ha concedido bastantes más excepciones y nadie se ha hecho ningún problema?

Así es. Existen muchos papiros más. Y es lo que digo siempre, y lo repito ahora: si este papiro fuera del siglo VII, sería fantástico, pero claro, es del siglo I y por ello no se acepta. Y yo sólo comprendo estas reservas por las consecuencias que trae esa aceptación.

Hay quien hablaba de una intencionalidad apologética en usted...

Si me dicen esto es como para ponerme un sambenito. Yo trabajo siempre con rigor científico y he hecho otras identificaciones, por ejemplo una que presentaron un grupo de profesores alemanes de Berlín como un trozo de prosa que yo lo identifiqué como del poeta Teócrito. Ahora me pregunto: ¿qué apologética he hecho con esta identificación? Entonces y ahora mi proceder es científico.
En el caso del 7Q5 la identificación realizada no fue buscándola, sino que simplemente se produjo. Además, el llegar a ella fue curiosidad en mi descanso... «hacer crucigramas en griego», sencillamente.

Siguiendo adelante hablemos de las conclusiones del cálculo de probabilidades, la prueba matemática. ¿No interfiere en algo el cambio de tau por delta que usted ha señalado?

De hecho yo le advertí de esto al profesor Dou, pero hay que suplir la equivocación del escriba. Matemáticamente, sin embargo, en la primera hipótesis de trabajo (él trabaja con cinco hipótesis distintas que en conjunto dan resultados favorables a la identificación que propongo) influye poco este cambio consonántico.

En el caso de la eta que usted ha dicho que no veía claramente...

En ese caso le pedí al profesor Dou que no la considerara y que pusiera allí un punto, que denotaba a una letra desconocida. El resto de las letras seguras del papiro se han considerado como tales.
Por otro lado se ha utilizado como base la misma esticometría (longitud de cada línea de la columna del texto) de mi identificación, es decir con el mismo número de espacios o letras y con un cambio de entre 20 a 23 letras, pues siendo letras que se hacen a mano no siempre su cantidad es constante en cada línea.

La primera hipótesis simplemente considera el número de letras y su ubicación, sin distinguir ninguna...

Sí. Se trata de un cálculo puramente matemático, sin identificar ninguna letra... Al hacerlo, la probabilidad de que se encuentre un arreglo que convenga al 7Q5 es de 1 contra 36 mil billones. Para entender esto se puede explicar que cuando se tira una moneda al aire la probabilidad de que salga cara es 1 contra 2. Así, la probabilidad en este caso es 1 vez entre 36,000'000,000'000,000 de posibilidades.
Esta cifra se reduce, es decir que la probabilidad es mayor, cuando se atiende al conjunto de letras de un texto expresivo literario, que es diferente de la hipótesis anterior de un texto inexpresivo matemático.

En el caso de un texto expresivo literario hay más probabilidades que en el caso anterior de que el fragmento 7Q5 coincida con otro texto diferente de Marcos...

Sí, pero la probabilidad en este caso es de 1 contra 900 mil millones... es decir que no hay realmente ninguna. Se trata de 1 vez entre 900,000'000,000 de opciones. Esto es seguro, porque entre este conjunto de miles de millones, matemáticamente hablando, es absurdamente imposible que pueda encontrarse una identificación, porque ésta es única y es con Mc 6,52-53.
Tanto en el primer como en el segundo caso, el asunto es científicamente seguro. Todos los detalles de ésta como de todas las hipótesis de trabajo del análisis del profesor Dou estarán consignados en el epílogo de mi próxima obra, como ya dije.

Hay una tercera hipótesis...

Ésta se refiere a una esticometría más larga, pues en el trabajo con las matemáticas buscamos agotar todas las posibilidades de variación. En este caso la probabilidad de una identificación del 7Q5 con un texto que no sea el de Marcos es de 1 contra 430 billones. Se trata de 1 vez entre 430'000,000'000,000 opciones. Nuevamente el resultado es muy claro.

Incluso hay un resultado más...

Los análisis del profesor Dou lo llevan a afirmar que en el caso de descubrirse en el futuro cualquier documento con el que el fragmento 7Q5 pudiera identificarse, ese documento y Mc 6,52-53 serían textos no independientes. Es decir que, eventualmente, cualquier otro texto que se descubra susceptible de sustentar una identificación del 7Q5 tendrá que ver con dicho pasaje de Marcos. Todo esto va a salir en el libro.

Usted se siente íntimamente convencido como científico de que su identificación es cierta...

Ahora sí, al comienzo no estaba tan firmemente convencido. Era una hipótesis muy probable. Ahora sí estoy seguro.

Dejando de lado el tema de la identificación propiamente tal del texto, acerca de la datación del texto...

La datación la hizo Roberts, el gran paleógrafo de Oxford. Quizás ahora van a poner más dificultades al respecto, pero hasta el momento nadie se había molestado. El profesor Fitzmyer decía en un artículo que como no se puede cambiar la datación, no han de aceptar la identificación del 7Q5. Ahora, como no se puede cambiar la identificación, han de buscar cambiar la datación.

¿Habría la posibilidad de utilizar el método del Carbono 14 para precisar la datación?

No, es imposible, porque habría que quemar el papiro... En pedazos de papiro más grandes sí es posible hacerlo, pero en este caso implicaría la pérdida total del mismo.

En relación al mismo tema de la datación, hay algunos, entre ellos el ya mencionado investigador K. Aland, que afirman que el papiro debía ser posterior al año 50.

El profesor Aland no era paleógrafo, o sea que con gran respeto a sus trabajos de crítica textual, en el campo de la paleografía prefiero otras opiniones.

Además existe un problema de por medio que es el paso del rollo al códice, ¿podría usted explicar algo de esto?

En el Simposio de La Sorbona, en París, realizado hace unos pocos años, recuerdo exactamente que los especialistas se pusieron de acuerdo y se puede decir que hacia el año 80 d.C. se dio el paso del rollo al códice; no matemáticamente, sino poco a poco se fue cambiando y cambiando, hasta que finalmente se pasó al códice, sobre todo para facilitar la difusión del Nuevo Testamento. Era más fácil enviar libros, códices, que rollos, complicadísimos de ser manejados.

En el caso del papiro 7Q5 tenemos un pedazo de rollo, lo que implica que sea anterior al año 80 d.C., que fue cuando éstos dejaron de ser utilizados...

En realidad anterior a cuando se cerraron las cuevas de Qumrán, hacia el año 68 d.C. O sea que ya por arqueología y por historia, por precisión histórica, este fragmento 7Q5 es muy antiguo.

Entre los métodos paleográficos, ¿cuáles se utilizaron para datar el papiro antes del año 50 d.C.? ¿Qué tiene que ver el llamado Zierstil («estilo elegante») con todo esto?

Cada estilo paleográfico (estilo de escritura) tiene un nacimiento, un desarrollo y una muerte. Es en base a estos estilos y a sus ciclos de vigencia que se puede saber la datación de un manuscrito. La datación la realizó el profesor Roberts, de Oxford, muy reconocido como ya he dicho. Otro profesor, uno de gran categoría de Italia, cuyo nombre no menciono porque me lo dijo confidencialmente -no tenía interés en que saliera su nombre en esta cuestión- sostuvo: «Como máximo este papiro es del año 50 d.C.». El que me dijo esto es para mí el mejor paleógrafo bíblico del mundo.

Es decir que paleográficamente el papiro 7Q5 tiene un estilo que está determinado entre un rango de años y por eso es posible datarlo...

Sí, este rango de años va del 50 a.C. al 50 d.C.
Puede ser que este estilo tenga una ramificación, pero hay que tener en cuenta una cosa: algunos de los papiros de la cueva 7 de Qumrán tienen rasgos que son muy interesantes, se encuentran rasgos paleográficos de los papiros de Herculano, de Italia. Entonces tal vez aquéllos se escribieron en Roma... En fin, hay una serie de cosas muy interesantes, enigmáticas todavía.

¿Tendrá que ver eso algo con la inscripción que se encontró en el ánfora de la cueva 7, que decía «Roma»?

Esto lo afirman algunos. Yo no soy técnico en ese campo y no me atrevo a sostenerlo. Gente más autorizada lo podrá decir. Esto mismo nos lo sugirió un profesor del Pontificio Instituto Bíblico, pero en cambio el destacado especialista en Qumrán Yigael Yadin dijo que no, que se ponía solamente el nombre del propietario o el contenido, mas no el origen geográfico... Pero a lo mejor el contenido era: «manuscritos de Roma». Se trata de algo que está abierto a la investigación.

Al hablar del 7Q5, ¿ante qué estamos? ¿Ante un trocito del Evangelio de San Marcos? ¿De qué versión del mismo? ¿De una fuente de Marcos?

Esto no lo sé. Algunos dicen que es fuente. El hoy cardenal Martini sostuvo algo al respecto e incluso, creo, lo publicó: habiendo un cambio de sección (entre los versículos 52 y 53 del capítulo 6 del Evangelio de San Marcos), es un texto ya formado. Hay un parágraphos, un hueco en blanco, que implica un punto y aparte. Pero, una vez más, eso sale de mi especialidad y por ello no puedo opinar. Otros lo dirán.

También hay otras señales que permiten hacer esta identificación con Marcos, por ejemplo el uso reiterado de la palabra «kai» (en castellano «y»), si no me equivoco...

Bueno, claro, es que no hay autor clásico que empiece un párrafo con «kai», como es el caso del papiro 7Q5. Éste comienza una sección en el versículo 53. Y si se tiene en cuenta que en Marcos más del 90% de las perícopas empiezan con «kai», mostrando un griego muy vulgar -que también hay que decir que es propio del Evangelio de Marcos-, los argumentos en favor de la identificación aumentan.
La verticalidad de las letras, el detalle del parágrafo, el «kai», el mismo hecho de que sea una lectio brevior (una lectura más breve debido al asunto del «epi ten gen»)... todos estos hechos llevan a O. Montevecchi a afirmar que si no hubiera esto, dudaría de que el papiro fuera antiguo.

Hablemos un tanto sobre las reacciones, como por ejemplo la del profesor Ravasi, quien mostrando desconocimiento del tema afirmó, respondiendo a la propuesta de identificación del 7Q5 con el mencionado pasaje de Marcos, que se trataba de un papiro con letras hebreas. ¿Qué hace que pueda darse esa falta de objetividad?

Esto en vez de preguntármelo a mí, pues habría que preguntárselo a él.

¿Usted no se ha hecho ninguna idea sobre el asunto?

Es que esta ligereza es algo increíble... Ravasi, que es un hombre muy competente en algunas cosas, ¡ni siquiera parece haberse dignado ver el papiro! Aparece clarísimamente «kai», aparece clarísimamente la tau, aparece clarísimamente también «nnes»... ¡Y dice que esto es hebreo!

¿No ve usted en esto, en el fondo, una discusión entre preconcepciones de pensamiento exegético?

Pues parecería que sí. Aquí hay un trasfondo de escuelas o mejor de posiciones. Claro que lo veo... La gente eminente del mundo que tiene su posición científica y demás, ¿cómo iba a cambiar por la propuesta de un joven desconocido en el campo bíblico internacional? En el papirológico yo era conocido, pero en el campo bíblico no. Si no se es un papirólogo de verdad, verá cosas o no verá cosas superficialmente...

¿Qué le dice a usted que las críticas provengan más de los exegetas que de los papirólogos, siendo que aquél no es propiamente su campo?

Lo que dice Herbert Hunger, quien ha sido Director de la colección de papiros de la Biblioteca Nacional de Austria, entidad de la mayor importancia para la papirología, tiene mucho de razón: Yo no hablo ni como teólogo ni como biblista, hablo como científico y papirólogo, y como científico digo que O'Callaghan tiene razón.
Lo que dice O. Montevecchi también es importante: Esto no quita ni pone nada, pues aunque no sea este papiro de San Marcos, el cristianismo no pierde nada.
Y ahora también se debe tener en cuenta a los que se oponen a la identificación que propongo. Que frente a sus prejuicios hagan gala de una más ecuánime y científica apreciación de las cosas.

Aun cuando su trabajo sobre el 7Q5 no es un intento apologético, aun así tiene consecuencias importantes para el anuncio de la fe en nuestro tiempo, sobre todo en lo que se refiere a la historicidad de los Evangelios. ¿Cómo ve usted esto?

Una cosa es que yo como sacerdote me alegre mucho, pero otra cosa es que un sacerdote haya llevado el agua a su molino. Cuando hacía una consideración final, ahora tras haber discutido y hablado con rigor científico, encontraba que como sacerdote estoy encantado de la vida, más aún considerando que mi lucha inicial fue muy difícil -yo había pasado entonces las primeras votaciones para seguir como catedrático en el Pontificio Instituto Bíblico y me lo jugaba todo como científico; era muy arriesgado para mí meterme en el asunto del 7Q5-. Y es que soy un convencido de que la investigación de la verdad necesariamente lleva a Dios, quien es la Verdad. Ahora como sacerdote, es cierto, no podía minimizar mi expectativa de que la identificación del 7Q5 con Marcos fuera verdadera, pero en ningún momento hice apologética, porque repito que trabajar así sería inaceptable. Tras los resultados finales de la investigación estoy encantado de que esto haya sido verdad. Esto no lo puedo negar.

¿Y qué consecuencias prácticas le ve usted? ¿Cree que es una puerta para que algunas personas vuelvan los ojos a la fe?

Bueno, esto lo verá cada uno. Yo no sé qué va a hacer la gente. Pero si esto se acepta, por la misma solidez científica que tiene, papirológica, matemática, creo que puede ayudar a que algunos puedan decir sí. Yo repito sin embargo mil veces lo mismo: este papiro no me ha aumentado en lo más mínimo la fe, porque mi fe está por encima de todos los pápiros y códices. Pero la fe supone la racionalidad humana, por consiguiente estoy contento de que la identificación que propuse pueda afirmarse con certeza.

Finalmente, si usted vuelve ahora su mirada hacia atrás, ¿qué lectura hace de esto que ha llamado una «aventura científica»?, ¿cómo ve las cosas a la luz de los años?

Bueno, ha sido todo. Ha sido bendición, ha sido prueba, ha sido calvario, ha sido gloria, han sido momentos intensos... Pero ante todo ha sido el esfuerzo de servir a Dios y a la Iglesia desde mi ministerio sacerdotal y mis estudios científicos.

© Copyright 2009. BIBLIOTECA ELECTRÓNICA CRISTIANA -BEC- VE MULTIMEDIOS™. La versión electrónica de este documento ha sido realizada por VE MULTIMEDIOS - VIDA Y ESPIRITUALIDAD. Todos los derechos reservados. La -BEC- está protegida por las leyes de derechos de autor nacionales e internacionales que prescriben parámetros para su uso. Hecho el depósito legal.
Autorizado pela fonte.